31 de mar de 2009

Não Contente em dar muito dinheiro à Abril, Serra dá Muito Mais

Já é de conhecimento público que Serra tinha dado o nosso dinheiro para a b..sta da EDITORA ABRIL, tendo comprado uma multitude de assinaturas das revista para as escolas.

Agora ele pega e dá MUITO MAIS do nosso dinheiro para a mesma editora, pois comprou assinaturas para totos os professores das redes de ensino.

veja (ecate!) melhor, óia neste link

Fico sem palavras, nem pra fazer piada. è de sentar e chorar

28 de mar de 2009

Eu posso explicar: a fita é ilegal

Realmente, concordo com o Leitor da Nova Corja... Imagina se justo neste momento, o marido desta senhora (foto ao lado) chega e ela diz "Eu posso explicar: ele não é meu marido legal, então não vale"

Foi mais ou menos nessa direção a resposta de Yeda Cruzis em relação a uma fita com acusações a ela "É surreal, a gente ter de explicar uma fita conseguida de forma ilegal" foi a frase pérola da governadora.

Rovai vai na Mídia Independente :) e nóis na cola dele


Iuhúúú!!! Aê Renato!

Um dos meus e-mails solicitando informações sobre a Conferência foi pro lindo, maravilhoso, tudo de bom, Renato Rovai. Em sua resposta, muito simpática, fiquei avisada par ir esperando um post, que acabei de ver que saiu, e aprendi uma expressão nova, que vou adotar, por ser sua fã (abreijos - um cruzamento de abraços e beijos)

O post não é sobre o Comitê, mas pelo que entendi, o evento da Mídia Independente (será que les tem site?) pode ser considerado como uma boa prévia, e quem sabe, um canal de participação possível para quem está nesta cidade de Sampa (os eventos preparatórios não devem receber apoio do nosso prefeito, nem muito pelo contrário, do nosso governador, pelo que sei). O evento foi custeado pela Agência Carta Maior (brigada, Carta Maior, também sou sua fã).

Valeu, Renato, valeu todos os presentes, Valeu Carta Maior!
(ah, que legal ver o Sakamoto na lista, também gosto muito do Blog dele)

A História de Formação da Conferência Nacional de Comunicação até este momento, segundo a Intervozes

Com o intuito de rapar um pouco da história que leva à Conferência Nacional de Comunicação que ocorrerá neste ano do senhor de 2009 (em dezembro), fui ao site da ONG Intervozes - financiada pela Ford Foundation, e cujo site é muito interessante e contém inclusive o dowload de dois livros que parecem legais - e dei uma procura que me levou a um conjunto de postagens que vou resumir a seguir.

Como no Romance “Cien Años de Soledad” em que os nomes dos sobrinhos meio que repetem os nomes dos avós e o leitor precisa da arvore genealógica para poder seguir com a leitura, também os nomes envolvidos – Conferência Nacional dos Direitos Humanos, Encontro Nacional de Comunicação, Conferência Nacional Preparatória de Comunicações, Movimento Pró-Conferência Nacional de Comunicação, Encontro Preparatório da Conferência Nacional de Comunicação e Conferência Nacional de Comunicação, devem ser pacientemente distinguidos pelo leitor. Perdoem os links desajeitados. Essa história mostra que também não foi fácil para os movimentos e ONGs chegar até aqui.


De acordo com a Intervozes, o processo começou a ser construído ainda em 2005, num seminário nacional sobre o direito humano à comunicação, realizado pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias (CDHM). O movimento para realização de uma Conferência ganhou força em março de 2007, quando foi aprovado na Comissão um requerimento pedindo a sua realização.

Dia 13/06/2007 abriram-se as inscrições para o Encontro Nacional de Comunicação, organizado pela Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara e vários setores da sociedade civil organizada, movimentos sociais. O Encontro teve como objetivo apresentar ao governo federal uma proposta para a realização da Conferência Nacional de Comunicação.
“É fundamental defender que ela deve acontecer primeiro nos municípios e estados para culminar numa conferência nacional ampla e representativa, cujas deliberações sejam incorporadas às políticas públicas de comunicação. Em resumo, será o momento da sociedade civil organizada e dos movimentos sociais demarcarem a posição de que querem e vão participar da organização da Conferência e do novo marco regulatório das comunicações” O Encontro contou com 250 participantes de 24 estados.

Do Encontro sai um documento que rejeita a proposta do governo de que a Conferência fosse marcada já para agosto de 2007. “Pois inviabiliza a construção democrática e a organização de etapas prévias estaduais e regionais preparatórias que garantam a legitimidade da Conferência Nacional de Comunicações". Foi criada uma Comissão Pró-Conferência que iria trabalhar no adensamento da discussão junto à sociedade civil e sua organização.
“Os empresários são muito bem articulados. E estão pressionando para que o evento convocado pelo ministro Hélio Costa (PMDB) tenha o respaldo necessário para defender os interesses deles e esvaziar o processo da conferência que nós estamos buscando construir” (Bráulio Ribeiro, da coordenação do Coletivo Intervozes)


No Congresso, Erundina defendeu uma moção contrária à iniciativa do ministro da comunicações, Hélio Costa, junto àquela casa sobre a possibilidade de o encontro ser realizado em agosto . "Uma iniciativa tomada por um órgão do governo que tem pouca relação com atores da sociedade que militam na área é preocupante e pode atrapalhar muitos os processos democráticos", afirma Erundina.


Em setembro do mesmo ano, o Ministério das Comunicações, em parceria com as Comissões de Ciência, Tecnologia e Comunicação da Câmara e do Senado, optou pela realização de um seminário internacional, dando ao evento o título de Conferência Nacional Preparatória de Comunicações, cuja legitimidade foi rejeitada pelo Movimento Pró-Conferência.

A Conferência Nacional dos Direitos Humanos (CNDH), realizada em dezembro de 2008 com 1,2 mil delegados teve, entre as pautas, a exigência "que o Governo Federal se empenhe na realização da Conferência Nacional de Comunicação"

No Encontro Preparatório da Conferência Nacional de Comunicação, realizado no dia 02 de dezembro, na Câmara dos Deputados, em Brasília, mais de 66 entidades e movimentos sociais, exigem publicação de decreto de convocação da Conferência pelo Governo Federal para 31 de dezembro. Abaixo assinado entregue ao Ministério das Comunicações reuniu mais de seis mil assinaturas. Ao final do Encontro, foi elaborado e aprovado um documento de resoluções com um calendário com realização das etapas municipais, regionais, estaduais e nacional. Para os internautas interessados, os eventos são abertos a participação e incluem a internet em suas pautas.

No dia 10 de fevereiro a Comissão Pró-Conferência Nacional de Comunicação – formada por entidades da sociedade civil, representantes da Câmara dos Deputados e movimentos sociais – reuniu-se com o consultor jurídico do Ministério das Comunicações, Marcelo Bechara, para apresentar contribuições ao Decreto Presidencial que convocaria oficialmente a conferência e à Portaria que instituiria sua comissão organizadora.

“Entre as propostas, também foi apresentada uma sugestão de composição da Comissão Organizadora da conferência. A comissão defende que ela seja formada por 30 membros. Destes, seriam 10 integrantes do poder público, sendo quatro do Executivo, quatro do Legislativo, um do Conselho Nacional de Justiça representando o Judiciário, além de um procurador do Ministério Público da União. Entre as vagas da sociedade, cinco seriam de associações de operadores comerciais do setor e 15 de organizações da sociedade civil não-empresarial".

Esta última cota contemplaria usuários dos serviços de comunicação, com direito à 5 vagas; organizações específicas da área (como profissionais, radiodifusores comunitários, associações e ONGs), com 7; entidades do campo público de comunicação, com 2, e a Academia (o que isso quer dizer?), com uma cadeira na comissão.”

No dia 18/02 iniciou-se a mobilização para a realização das etapas estaduais. Clicando aqui você poderá ver alguns dos governos estaduais que estão dando amparo ao movimento e alguns (como o governo de Yeda Crusius) que não estão.

Ainda não sei como as coisas estão aqui em São Paulo.

Sobre ‘Tropa de Elite’



Foi o Maurício começar a teclar e eu tirei minha metralhadora do armário.



Oi, Maurício

Adorei ler a sua análise. Mandou bem, véi (como dizem meus alunos mais jovens - ks ks)

Cinema Realista? Com certeza esse colunista não viu nem trailer de Cinema Realista. Deve ter ficado sabendo do fato de que houve um cinema realista pela exímia leitura da contra-capa de algum livro sobre o tema.

* * *
Agora, nem o cinema realista é chamado de ingênuo por um dos maiores estudiosos do tema, que é Sorlin, e de forma alguma o filme "tropa de Elite" pode ser chamado de ingênuo. Na minha opinião, a equipe que filmou, editou, escreveu o plot e dirigiu o filme é tudo menos ingênua. O Filme é assaz inteligente (para o mal). Não tive estômago para fazer uma análise mais densa das imagens, mas me lembro de algumas coisas que corroboram a minha afirmação:

1. O filme consegue despertar aquele espírito de classe média que quer poder andar pelas ruas e proceder com sua vidinha sem ser ameaçada pelo lumpen, mesmo que a paga disso seja a tortura do favelado pela polícia boazinha com saquinho de supermercado. (se aconteceu até comigo que sou classe média de esquerda, imaginem o que esse filme não desperta na classe média em geral. uma coisa que faço, a titulo de experimento, é me entregar ao filme sem críticas e sem reservas só para ver que sentimentos me desperta e o meu sentimento no fim do filme era totalmente a favor das torturas policiais. p.s: claro que essa não é minha posição de socióloga)

2. O filme constrói um grupo de personagens que se aproximariam de um estereótipo complexo que existe na nossa sociedade do defensor dos direitos humanos como "defensor dos direitos humanos do bandido" (creio que qualquer brasileiro já esteve exposto a este estereótipo). Para isso, ele constrói a imagem de um grupo de jovens que se drogam (e quando o filme bota a culpa pela existência do tráfico e toda a violência em torno dele nestes personagens, não está sendo nada ingênuo: está apontando o dedo para os defensores dos direitos humanos e dizendo ao expectador "é eles que você deve odiar. Eles são os culpados". É um j'accuse às avêssas.

Imagine só que a culpa por toda essa violência muito feia que te apavora, ó ser de classe média, é desses jovens irresponsáveis (também de classe média) que consomem drogas e são uns filhinhos de papai que não sabem de nada e que ficam por ai nas universidades, e por não terem o que fazer da vida ficam inventando essas conversas de direitos humanos. A mensagem pra classe média é mais ou menos essa "fique de olho no teu filho", além de "odeie esses jovens", sem contar com a mensagem "os defensores dos direitos humanos não passam de uns mauricinhos e patricinhas drogados". Ingênuo?

Vamos adentrar ainda mais esta ingenuidade e perguntar se a polícia - aquela que é construída como essa tropa de elite incorruptível - que aponta o dedo para esses personagens acima, além de apontar o dedo para o resto da polícia construída pelo filme como uma polícia totalmente corrupta (não estou negando que a polícia corrupta não exista e que ela não seja elemento importante nesse complexo, só quero chamar atenção para como essas imagens da polícia são construídas pelo filme). Lembremos da polícia federal, por exemplo, que até 2004 aparecia nos jornais fazendo grandes operações de combate ao narcotráfico, e que a partir de então começa a montar estas grandes operações contra a corrupção, como é o caso da satiagrarra e que está sendo alvo da mídia: ela não parou de combater o narcotráfico, que eu saiba - onde está esta polícia no filme? Não está? Que conveniente. Não creio que as pessoas que fizeram o filme são jovens o bastante para não saberem disso.

Agora vamos pensar de outra forma: as armas ilegais, bem como a grande quantidade de drogas que entram nos morros - vamos lembrar que lá nos morros não tem aeroporto, nem nenhuma conexão direta Farc-morro - queria perguntar isto: como é que tudo isso entra nos morros sem ninguém ficar sabendo? (o arsenal todo de armas e drogas é de toneladas, não dá pra esconder debaixo da jaqueta nem num fiat uno). Quem é que deixa entrar? O guardinha corrupto que recebe uns cem mangos no filme? O Estado? Desde 2002 há uma operação montada na cidade do Rio de Janeiro, chamada 'Pax Rio', que coloca inclusive um dirigível (isto não é roteiro de um sci-fi barato, se quiserem é só procurar pela operação “Olho no céu”) para patrulhar as favelas. ELES não sabem de nada? O sistema todo parece integrado a uma rede de computadores e captura de imagens.

Mas para além disto, junto às minhas, as palavras do professor Marcos Alvito " As favelas e áreas empobrecidas da nossa cidade serão submetidas a um duplo panoptismo. Vigiadas em terra pelos traficantes que impedem a livre movimentação dos moradores e controlam com mão de ferro as atividades comunitárias, destruindo o espaço de produção da cultura popular carioca, agora estarão também submetidas a um “Olho no céu”... Tais políticas, além de se constituírem numa perigosa escalada totalitária, reforçam a idéia de que o crime organizado esteja enraizado nas favelas, privilegiando a sua face mais visível e espetacular (as bocas de fumo e seus soldados pesadamente armados) e ocultando o crime enquanto um processo amplo que envolve redes mundiais de importação de drogas e armas, lavagem de dinheiro e corrupção em vários níveis (policiais, magistrados, políticos). Será o dirigível capaz de filmar a movimentação das contas numeradas ? Suas câmeras serão potentes o suficiente para registrar a desigualdade social, o desemprego e a falta de perspectivas que tornam os jovens moradores de favelas uma mão-de-obra descartável a ser empregada na ponta mais perigosa deste processo ? Os sensores instalados no ‘Pax Rio’ darão conta do processo de globalização que tudo transforma em mercadorias, dentre as quais a droga é a mais rentável ?” (texto completo aqui)

O filme Tropa de Elite" é muito astuto em construir estes dois culpados (os policiaizinhos que levam bola e os estudantinhos classe média que consomem e mantém o tráfico). Ele tira do foco os magistrados, políticos e coronéis de grande escalão que realmente estão levando um bolão e para quem essa aparência de que o ‘Pax Rio’ controla a favela é útil, ao tirar de foco eles mesmos.

3. A sociologia é atacada no filme, de forma lateral. Isso por que junta-se ao estereótipo do defensor dos direitos humanos, o estereótipo do que vem a ser o sociólogo. Segundo o estereótipo, o sociólogo seria um cara que fala muito, fala difícil, mas não sabe de nada. Para quem viu o filme, você deve se lembrar que os personagens estudantes são filmados na sua aula de “sociologia”, e no entanto, não são estudantes de um curso de sociologia – já não lembro, mas creio que são estudantes de direito (hum... direito... direitos humanos.... isso ainda não havia me ocorrido...). Os diálogos em que os personagens estudantes expõem a sua “sociologia” são pueris, quase infantis. Isso contribui para alavancar o estudante que é policial, membro da “tropa” a uma posição e fala que aparenta ser muito mais lúcida que as dos estudantes mauricinhos.

Por tudo isso, e se eu viesse a assistir o filme com a intenção de desmontá-lo, creio que poderia adicionar os elementos das imagens nesta análise (mas não creio ainda que tenho todo esse estômago), posso dizer que o filme é uma construção brilhantemente maquiavélica. Ele se utiliza de um dos saberes mais antigos da dominação. O saber que manda desde o Império Romano, dividir para dominar. No filme, todas as classes menores são divididas – os favelados, a polícia e a classe média – entre mocinhos e bandidos. É só botar uns contra os outros que eles esquecem que o problema tá nas classes acima de todos, o grande irmão que continua na invisibilidade segura.

Sobre a participação de independentes nos movimentos de partidos: uma reflexão para sem-ONGs no Comitê Nacional de Comunicação

O texto abaixo é em resposta à questão de um amigo acerca da participação no Comitê Nacional de Comunicação. Copio abaixo a teclada dele:

“Esse movimento, Flavia, precisa ser muito bem lapidado. Pois do contrário ele parecerá um movimento de esquerda, partidarizado -- ao invés de um movimento em prol do desenvolvimento de conquistas democráticas. Esse é o problema que eu vejo em expressões como "imprensa golpista" e coisas afins. O discurso precisa se elevar acima de questões estritamente partidárias e afirmar metas e objetivos democráticos”


Eu compreendo e compartilho da posição de que o discurso precisa se elevar acima de questões estritamente partidárias e afirmar metas e objetivos democráticos. Por isso mesmo creio que a participação de independentes – ou de cidadãos da sociedade desorganizada – como queiram chamar, é fundamental. No entanto, preciso advertir contra algumas armadilhas da idéia de despartidarização. Então peço que o leitor me acompanhe numa história pessoal, que é a história de uma independente no país dos partidos.

* * *


Uma coisa que aprendi com as minhas participações no movimento estudantil: sempre fui independente - o pessoal do PT articulação, PSTU, e até POR (partido operário revolucionário, com um representante no Brasil, pelo que conheço) tentaram que eu fizesse minha carteirinha. Eu consegui permanecer "sempre galadriel" e não peguei o anel. Mas eu não diria que esse era o anel do mal "para a todos dominar". É preciso ver que todos esses são mais outros atores do processo, e que essa é a forma que eles encontraram de participar.

Me lembro quando em - sei lá, acho que em 1995 ou 96, quem sabe tenha sido em 94, que foi ano de uma grande greve nas universidades - eu participei de um Congresso na USP - que era um congresso de CAs de todos os cantos do Brasil. Foi um frio do cão - dava pena de ver quem veio despreparado. Eu mesma nunca mais precisei das roupas com que me protegi naquele ano...

Bom, no Congresso eu via alguns "independentes perdidos", que são aqueles independentes ingênuos que o povo dos partidos “ataca” (há várias formas de ataque, incluindo mandar uma menina bonitinha do seu partido – se o seu partido não tem meninas bonitinhas, ta em desvantagem). Esses independentes iam nas reuniões e pediam que a discussão fosse despartidarizada. Mesmo eu, independente firmona no país dos partidos, fiquei com pena daqueles caras do CA de não lembro onde (na época era assim o independente tinha que fazer um esforço tremendo pra continuar a ser independente e ainda participar).

No ano passado (ou retrasado?), quando ocorreu a invasão da reitoria da USP (1) fui lá dar uma olhada e foi agradável perceber que havia um grande contingente de independentes convictos participando das discussões e re-afirmando seu lugar e direito como independentes, um verdadeiro - se assim se possa dizer - movimento dos independentes, que tinha até nome, mas já não me lembro qual, e que era o grupo mais forte do momento e super-engajados.

Como as coisas mudaram... nos idos do ano que se perdeu na minha memória, eu era uma das poucas “peixe de fora dentro d’água”... e os independentes perdidos – a maioria dos independentes - eram “peixe fora d’água" mesmo.

É difícil pro independente encontrar um lugar quando os movimentos são "dominados" por partidos, ou por organizações, como parece o caso do Comitê (se bem que isso eu ainda não sei – talvez eu só ainda não tenha ainda encontrado uma forma de participação que não envolva eu virar associada de uma das organizações). No entanto, não é impossível. A minha continuidade no movimento estudantil nos anos 90 (com alguns grandes e pequenos feitos, tanto pra direção certa quanto pra direção contrária) foi uma prova disso. A formação de um movimento de independentes nos anos 2000 - que não tinha qualquer palavra de ordem e assim mesmo fazia a influência muito coerente e a mais forte no movimento de estudantes que invadiu a reitoria - é o exemplo maior (que eu conheço) dessa possibilidade.

Voltando para os idos de noventaetanto, quem era eu: uma espécie de Tancredo Neves, que circulava entre os grupos, discutia, ruminava o que me era dito, falava com os caras e as minas do PT, POR (não muito: o cara era totalmente pela revolução agora dos operários, veja bem), PSTU, até com aquele povo que achava que Quércia ia organizar a revolução (esqueci também o nome deles – pra articulação do PT eles eram o demônio, pro PSTU eram no máximo, motivo de risada, ah, sim, o MR8).

É verdade que muitos dos partidos me olhavam de soslaio, meio desconfiados, outros me achavam inócua, outros tentavam se utilizar de uma “ingênua útil” (e quando eu concordava que as posições deles iam nas mesmas direções que as minhas eu deixava – quando não eram, não deixava, isso já rendeu críticas de um deles, como se eu fosse uma espécie de traidora, mas tudo bem, admito que não fiz isso sempre sem errar).

Ao mesmo tempo, a minha posição nunca foi tirada em consulta só comigo mesma: na época “eu era o CABIO” (última remanescente da chapa com quem entrei) e via como minha missão falar com os estudantes da Biologia-USP, o que eu fazia por vários meios: chamando reuniões, publicando jornaizinhos, pintando cartazes, parando no tempo livre pra falar com as panelinhas (2).

Da parte dos alunos eu sempre via essa mesma vontade: que a discussão fosse despartidarizada. A minha presença entre eles foi bastante agregadora, pois eles logo perceberam que eu não era de partido, e me deram seus ouvidos, começaram a participar, deram sujestões muito boas (outras nem tanto). Em alguns momentos o apoio que consegui para algumas coisas - como as eleições de RDs para os Conselhos da USP e a participação da Bio na greve em 94 (lembro que perdi um show do Tarancón pra ir a uma assembléia (hmf) – foi maior que qualquer outra antes registrada (para o movimento estudantil a Bio era algo inexistente até então). Houve bolas foras minhas, também da alunada (todos somos apenas humanos, demaziadamente). Assim como houve bolas fora dos vários participantes de partidos (lembre-se que eles também – apesar de parecerem ao independente como se fossem uns etês vindos para dominar a terra – são na verdade outros seres humanos tentando mudar o Brazil como podem e a partir do que sabem).

A questão da despartidarização é uma falsa questão. É falsa por que suas premissas são falsas. Como pode haver democracia sem dar voz às pessoas de partidos (ou das ONGs)? Não é humanamente possível botar uma venda na boca daqueles que gritam palavras de ordem ou barrar a participação dos que vem de agenda montada pelo partido (ou pela ONG).

A questão inversa - que não é possível participar sem partidos (ou ONGs) – que hoje já não tem lugar na USP, mas que era o contexto dos que estavam dentro do movimento estudantil nos anos 90 – é da mesma forma falsa: Como é possível garantir uma participação democrática sem dar voz aos independentes (ou aos sem-ONG)?


Somos todos – pessoas de partido, associados de ONGs e pessoas sem-associação – cidadãos. É necessário cultivarmos a tolerância e a habilidade de sermos capazes de ouvir, avaliar, ruminar e ainda por cima participar de maneira positiva.

Tenho grande fé nos independentes. Se por um lado às vezes ele não encontra meios de participar nos processos (e muitas vezes acaba optando por ficar à margem), e por outro a participação organizada é muito forte (e por isso mesmo necessária) em termos de conseguir as informações mais pertinentes – como onde intervir e por que meios, além de terem acumulado todo um quadro de em que pé as coisas se encontram neste momento, sem o qual qualquer ação é ingênua e sem eficácia, por outro lado a participação dos independentes, quando conseguem se organizar numa “não-organização” é fundamental (como é o exemplo do movimento dos independentes: não veio de uma ONG ou partido e não fundou nenhuma ONG nem partido: se formou naquele momento em torno apenas da questão e conseguiu realizar muito na sua “organização temporária e pontual”).

Por que a “organização temporária e pontual” dos independentes é importante? Por que só os independentes conseguem ter um ponto de vista que vai além das organizações. Não que as ONGs e partidos sejam míopes, mas é de se esperar que as pessoas envolvidas nas organizações acabem compartilhando um ponto de vista próprio desse ciclo de associados e de ações burocráticas em que estão envolvidos até o pescoço e que as vezes não os deixa ver para além disso.

Mas o independente não consegue nada de produtivo se não entra em contato com as organizações (que detêm informações relevantes) e se não se associa temporariamente a outros independentes (pois as ações de cada indivíduo, muito errática e por vezes fora do tom) acaba por se auto-anular, na maré das grandes ações.


Quanto à minha forma de participação nos comitês municipais e estaduais, que são preparatórios para o Comitê Nacional de Comunicação que acontecerá em dezembro deste ano, estou tendo a sensação de que as ONGs estão tendo um maior papel na não aceitação do independente que os partidos tiveram no movimento estudantil dos anos 90. Estou exausta de tanto mandar e-mails pedindo orientações de como participar, onde ir e com quem falar. As respostas ou não vem, ou são lacônicos e-mails com clippings dos textos postados nas páginas dessas ONGs (que no entanto, leio), ou me mandam o formulário de alistamento na ONG, ou o endereço de email que está na página deles – que é o e-mail de um fulano específico – retorna como “Undelivered Mail Returned to Sender”.

Ainda estou à busca de respostas, e se alguém quiser me ajudar, é bem vindo. Talvez eu ainda não tenha encontrado o canal certo, ou talvez ele ainda não exista, mas não vou deixar de procurá-lo ou tentar formá-lo. É possível que eu não consiga, e que minhas ações sejam vãs e se percam na maré dos grandes eventos. É possível que só na década de 2030 os independentes consigam organizar um movimento próprio para uma outra causa nobre qualquer.

Como os blogs participam disso?
Juntando as pessoas e ampliando as discussões. Usando as páginas da ONGs pra rapar informações para tentar degluti-las nos blogs. Mas também os blogs são um pequeno circuito de pessoas que tendem a fazer o que conhecem, da forma que conhecem, e reuniões de assembléia são coisas tão etês para a maioria dos blogueiros quanto as pessoas de partidos. Hoje, fazendo parte deste universo, concordo que é muito desconfortável que tudo não ocorra numa grande discussão do Twiter. Mas o que podemos fazer? Ficar à margem? Obviamente que se este “movimento” cair em ouvidos surdos e por demais acostumados a teclar, e se permanecer um movimento de uma blogueira só, é isso que vai ocorrer e tenho consciência do ridículo que aparentam as minhas últimas palavras. Mas eu me recuso em acreditar que qualquer atitude minha a respeito seja uma atitude vã. Quem sabe se ela não ajudará (mesmo que um pouquinho minúsculo) para que algo diferente aconteça em 2087?



Notas:

(1) É possível que essa história possaa ser desencavada no Blog da Ocupação. Deve haver alguma publicação assinada por um ou mais professores da USP a respeito, imagino, pois na época, professores de antropologia propuseram que a sua forma de participação fosse feita com uma pesquisa de participação observante, ao estilo dos antropólogos mais clássicos, e determinaram que essa fosse a pesquisa dos alunos em greve - dessa forma eles continuaram estudando e participando. No entanto, apesar dos antropólogos da pesquisa de imersão nas culturas serem do século passado, nunca antes houve uma proposta vinda dos professores para que tal pesquisa fosse realizada pelos alunos em greve, o que a meu ver é sinal que os professores pressentiram que havia algo muito diferente acontecendo naquele ano.

(2) (na minha época a Bio era todinha panelinhas, eu mesma perdi o apreço da minha panelinha no processo de sociabilizar com outras panelinhas, mas encontrei as pessoas mais tarde e ainda somos amigos. Nem sempre é possível manter as amizades nos momentos tensos, mas nem sempre é impossível reavê-las: outro ano mesmo encontrei no ônibus um cara com quem quase saí no braço (ou de fato saí no braço?) mais tarde quando fazia sociologia – a felicidade dele de me ver e minha de vê-lo foi instantânea, singela e radiante – houve um lindo sorrizo colgate entre nós. A minha explicação pra isso é de que eu, pra ele - e ele, pra mim - faz parte de um momento da nossa vida que foi importante e que apesar da briga, fomos muito mais relevantes um pro outro que muitos outros alunos que nem se comprometeram com a discussão (ou talvez a explicação é que ficamos retardados por um momento)

Pra Calar o Tibet, China BLOQUEIA o youtube


Chineses não podem mais acessar o youtube desde a última segunda-feira. O site foi bloqueado pelo governo chinês por causa de um vídeo divulgado na semana passada, que mostra cidadãos tibetanos sendo amarrados e agredidos por forças chinesas. Ver notícia aqui, ou no site do The Guardian (o vídeo está no youtube com acesso a usuários registrados aqui)

Do site do TimesOnline dá pra acessar o vídeo

Então Me Excomungue

Campanha coleta assinaturas em abaixo assinado que termina com a frase do título.

O Novo Chapéu do Papa


O Papa (não) surpreende a todos ao declarar, em visita à Africa que camisinha não é solução para a epidemia no continente.


A imagem é do cartunista Peter Brookes

26 de mar de 2009

Sobre programas de transferência de Renda

Você já ouviu estas frases antes?

"É só mandar eles trabalharem para poderem receber um salario bom"
- sério? é só isso?

"Ficar esperando esmola do governo via salario familia é degradante"
- pra quem?

"Esmola é esmola não importa o nome que queira se dar" junto com "Jesus já tinha dito, ‘quem dá aos pobres empresta a Deus”.
- Hein? vou juntar isso às minhas pérolas do pensamento



Mas, a sério, e mudando de assunto, vi um post interessante no blog do Nassif sobre um estudo de econometria acerca do Bolsa-Estudo. As autoras generalizam suas conclusões para programas de transferência de renda em geral: mais um argumento contra aqueles que acham que “não há mais cartões para distribuir ao andar de baixo”, ou que “o baú da transferência de renda se esvaziou".

"Os resultados do trabalho indicam que os gastos das famílias beneficiárias são destinados principalmente à melhoria da dieta das famílias (quantidade e diversificação) e conseqüentemente de suas crianças e à obtenção de itens relacionados à educação infantil, higiene e saúde. Tais resultados podem sugerir que programas de transferência de renda, como o caso do Bolsa-Família, que transfere um valor monetário superior, podem também ter efeitos de longo prazo uma vez que a melhoria do status nutricional, o incentivo à educação e os cuidados com a saúde irão permitir o acúmulo de capital humano destas crianças e, deste modo, permitirão a quebra do ciclo de pobreza destas famílias.”


Não querendo darmos de sabichões, mas isso a gente já suspeitava.

Nada a ver com a roubalheira no Detran, o sucateamento do Estado, a casa nova, a maquiagem contábil do "deficit zero",

as surras de cassete no funcionalismo, o "suicídio" do assessor em Brasília ou a arapongagem criminosa

O que Yeda tem é dificuldade de se comunicar com os eleitores.

(querido Cloaca, me perdoe o copião, mas é muita comédia dessa jornalista!)

A triste situação da Imprensa nestes dias, ou o que será que a mídia vai fazer com esse Abacaxi

O jornalista Luciano Martins Costa tem razão: com sete partidos da oposição ligados ao mais novo escândalo Camargo Corrêa, haja cimento e tijolo pra tampar o rombo. Estamos ansiosos para descobrir o que a grande mídia vai fazer com isso (como se não soubéssemos que em casa de pedreiro todo mundo tem areia)

25 de mar de 2009

Por Um Movimento de Blogueiros na Conferência Nacional de Comunicação que vem ai

Depois que comecei a ler a nova lei argentina de comunicação audio-visual me deu vontade de fazer algo, exigir que o mesmo seja feito por aqui e que englobasse inclusive uma carta de direitos à internet (o que considero uma resposta necessária ao projeto do Senador Azeredo, que pelo que aparenta, vai ser aprovado ainda pior). Tá, pode me falar "Terra chamando", mas sou daquelas que quando coloca uma coisa na cabeça... Então agradeço ao Idelberg pelo link para o Movimento Pró Conferência Nacional, chamada para este ano pelo governo federal, e que parece promissora: copio abaixo uma parte do texto do site:

Para ampliar sua força de mobilização, dessa vez contribuindo para a intervenção da sociedade nas etapas preparatórias municipais e nas Conferências Estaduais e Nacional, a Comissão Pró Conferência Nacional de Comunicação (CPC) convida as entidades com atuação nacional que ainda não fazem parte da articulação a se juntarem no trabalho de mobilização da CPC.

Tenho visto falar que o que está acontecendo na Argentina dificilmente ocorreria no Brasil. O que está acontecendo na Argentina é até difícil de ocorrer na Argentina, e é certo que não vai ocorrer facilmente no Brasil, mas difícil não é impossível.

Não acho que a mudança seja algo tão difícil de imaginar. Mesmo que ela ocorra a longo prazo. Todos esses anos de descalabros da mídia estão formando uma situação de inconformidade, de angústia que acho que vem se acumulando. O aumento do número de blogs críticos a esta situação e o aumento do interesse de leitores é uma demonstração desse fato na internet. A Folha, ao que parece, vem perdendo leitores (lembro de algum comentário a respeito na época do protesto contra a ditabranda). Se não me engano, pela resposta da Record à Globo dá pra ver que também a Globo vem perdendo audiência. Isso demonstra uma certa perda de poder dessas mídias.

Durante o protesto na frente da Folha muito se falou de direito de resposta nesse meio, e da sua anti-democracia (com o que concordo plenamente). No entanto, não acho que o direito de resposta é algo no qual devessemos investir muito esforço. Na verdade não acho que deveríamos investir esforço algum. O direito de resposta só serve pra essa mídia demonstrar que é "democrática", e todos sabemos que ela não é democrática porra nenhuma. Por outro lado, essa mesma mídia vem perdendo espaço e creio que é nisso que devemos investir: rádios, canais de tv e internet sustentadas por uma carta de direitos cidadã. Minha moral me diz que é mais honroso tentar e perder - e depois ter mais essa pra esfregar na cara dos que dizem ser a mídia democrática - do que ficar dizendo que é muito difícil remar contra a correnteza. Depois, uma derrota dessas é uma vitória: é algo que se registre na história das lutas pela liberdade de expressão.

De qualquer modo, a brecha está ai, e acho que as pessoas e movimentos comunitários vão fazer um esforço para aproveitá-la. Ao que tudo indica, o projeto do Azeredo vai ser aprovado a revelia de toda (ou parte de) uma blogosfera que não está gostando nada dessa conversa. Isso pode representar um impulso no nosso sentimento de ultraje. É preciso ampliar este debate e se juntar às comunidades que reinvindicam rádios e tevês. A ampliação do debate pode nos levar longe - pode nos levar à reinvindicação dos direitos humanos, como na lei argentina. Este espectro ronda a mídia: até quando ela conseguirá escapar dele? Mais produtivo gritarmos com Obama "yes, we can", mesmo que as vitórias não sejam totais.

Já correndo o risco de adentrar lirismo afora, gostaria de lembrar parte do discurso de Luther King

"In a sense we've come to our nation's capital to cash a check. When the architects of our republic wrote the magnificent words of the Constitution and the Declaration of Independence, they were signing a promissory note to which every American was to fall heir. This note was a promise that all men, yes, black men as well as white men, would be guaranteed the "unalienable Rights" of "Life, Liberty and the pursuit of Happiness." It is obvious today that America has defaulted on this promissory note, insofar as her citizens of color are concerned. Instead of honoring this sacred obligation, America has given the Negro people a bad check, a check which has come back marked "insufficient funds". But we refuse to believe that the bank of justice is bankrupt. We refuse to believe that there are insufficient funds in the great vaults of opportunity of this nation. And so, we've come to cash this check, a check that will give us upon demand the riches of freedom and the security of justice."

Como ele e muitos cidadãos americanos, precisamos descontar o cheque dos direitos humanos, os direitos de expressão. Eu quero mais é que a "grande" mídia se dane. Ela não vai ser consertada. Nem deve. Ela deverá se enterrar na sua própria enterocefalia. Ela já está dando mostras de que está perdendo campo: todos esses discursos raivosos que ela publica e/ou bota no ar são o sintoma disso.

Nova Lei de Comunicação Audio Visual da Argentina mostra novos rumos que precisamos tomar no Brasil, inclusive acerca dos direitos na Internet

Está no Blog do Nassif a sugestão de que comecemos a discutir uma nova lei Audiovisual. Copio abaixo meu comentário.
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Comecei a ler a lei e uma coisa que me marcou foi a leitura da tabela, nas primeiras páginas, comparando a lei antiga e a proposta da nova. Uma mudança tremenda: a nova lei deverá se basear no tratado dos direitos humanos (a velha se baseia na segurança nacional) prevê concessões para tv e rádio comunitárias e de associações sem fins lucrativos (a lei antiga só prevê concessão para assoc. com fins lucrativos), coloca parâmetros de idoneidade, de obrigação de disponibilização de conteúdos relevantes para informação dos cidadões, prevê controle pelo congresso e por orgão (a ser criado) cujos representantes serão eleitos, prevê contrapartidas sociais com relação a impostos, cinema nacional e conteúdos educativos.. enfim, uma legislação democrática e cidadã.

Creio ser necessário a organização aqui no Brasil, das comunidades - a organização em torno de blogues de discussão é um bom início - com o intuito de enviar pedido aos nossos representantes no gov. federal, senado e congresso, de estudo dessa lei e elaboração de um projeto democrático e cidadão também para o Brasil, e que vá além das concessões televisivas e radiofônicas e proponha uma carta de direitos para os usuários da internet com base no mesmo tratado dos direitos humanos, como resposta necessária aos projetos restritivos, como o do projeto do Senador Azeredo

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seguindo os links do Blog do Nassif, você poderá se registrar no fórum de discussões, e se quizer ver o projeto diretamente, clique aqui para o PDF.

A entrevista de Mendes à Folha nesta terça


Mais ligado que luz em época de Natal, Idelber manda bem nos posts que escreve lá dos states, avisando a turma da entrevista com Gilmar Mendes no teatro da Folha. Foi um bom lugar, realmente, para fazer isso... um teatro. Como era de se esperar, o que se desenrrolou foi a apresentação de uma antiga peça do mesmo. Mas uma coisa me deixou feliz: foi a forma como o grande ator foi ovacionado: estava nos comentários ao mesmo post:
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FASCISTA! NAZISTA!!!

Os gritos para Gilmar Mendes no Teatro Folha, registrado na TV UOL.

FASISTA! NAZISTA!!!

Aline em março 24, 2009 1:37 PM



pra quem tem estômago de avestruz - entrevista na íntegra
eu mesma ainda não me animei

22 de mar de 2009

O caso da Mídia contra o Presidente

Calma... o título é só uma piada, só que mais uma daquelas sem graça. Assim como aqui no Brasil, em que o presidente Lula é endemonizado por uma mídia poderosa, nos EU, também Obama vai ter que dar conta de uma mídia raivosa e babona, que segundo o jornalista Argemiro Ferreira é capaz de fazer mudar até os votos dos concervadores na votação do pacote de estímulo econômico na câmara. Uma demonstração de que o poder da mídia ligada aos interesses neocons não faz estragos só aqui.

El Salvador e os Crimes de Reagan

Centenário de Dom Helder

Copio aqui trecho do texto de Luiz Alberto Gomés de Sousa em homenagem ao centenário de Dom Hélder Câmara

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"Nesses primeiros anos em Recife, começo da ditadura, acolheu perseguidos políticos, visitou prisões e levantou sua voz de protesto. Os militares não se animaram a prendê-lo, mas torturaram e mataram um de seus sacerdotes mais próximos, o Pe. Henrique Pereira Neto, assistente dos jovens na diocese. Seu corpo, terrivelmente mutilado, foi encontrado num campo da periferia. D. Hélder sofreu muito e sentiu que era a ele que queriam atingir através do Pe. Henrique. Por esse tempo, Gustavo Gutiérrez terminava seu livro clássico Teologia da Libertação e a dedicatória foi a esse sacerdote-mártir.

D. Hélder, fiel ao pacto das catacumbas deixou o Palácio de São José de Manguinhos e foi morar nos fundos de uma velha igreja, a Igreja das Fronteiras, em dois cômodos, sozinho e sem proteção. Lá o iria ver, numa noite escura, um rude sertanejo que lhe entregou, chorando, a faca com que tinham encomendado sua morte."

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Dom Hélder, o senhor que está ai ao lado esquerdo de Sto Marx (Sto Marx só tem lados esquerdos, é verdade) ofereço em sua homenagem a canção Les Temps des Cerrises - clique aqui, Dom Hélder - e não ligue pras imagens- esta é uma canção que tem grande importância pela interpretação que teve durante a Comuna de 1866 1871. Abaixo a letra:

Quand nous chanterons les temps des cerises
Et gai rossignol et merle moqueur
Seront tous en fete

Les belles auront la folie en tete
Et les amoureux du soleil au cœur
Quand nous chanterons le temps des cerises
Sifflera bien mieux le merle moqueur

Mais il est bien court le temps des cerises
Où l'on s'en va deux cueillir en revant
Des pendants d'oreilles

Cerises d'amour aux robes pareilles
Tombant sous la feuille en gouttes de sang

Mais il est bien court le temps des cerises
Pendants de corail qu'on cueille en revant

Quand vous en serez au temps des cerises
Si vous avez peur des chagrins d'amour
Evitez les belles

Moi qui ne crains pas les peines cruelles
Je ne vivrai pas sans souffrir un jour
Quand vous en serez au temps des cerises
Vous aurez aussi des peines d'amour

J'aimerai toujours le temps des cerises
C'est de ce temps-là que je garde au cœur
Une plaie ouverte

Et Dame Fortune, en m'étant offerte
Ne pouura jamais fermir ma douleur
J'aimerai toujours le temps des cerises
Et le souvenir que je garde au cœur


E a minha tentativa de tradução:

Quando cantaremos o tempo das cerejas
e o cordial rouxinol e o melro zombador
estarão todos em festa

As beldades serão insanas
e os amantes com o sol em seus corações
Quando cantaremos o tempo das cerejas
Cantará melhor o melro zombador

Mas é bem curto o tempo das cerejas
Onde vão colhê-las nos sonhos
os brincos

Cerejas de amor com as mesmas vestes
caem sobre as folhas em gotas de sangue

Mas é bem curto o tempo das cerejas
pendantes de coral que colhemos nos sonhos

Quando vocês estiverem nos tempos das cerejas
Se vocês tiverem chagas de amor
evitem as belas

Eu que não temo os sofrimentos cruéis
Eu não viverei sem sofrer um só dia
Quando vocês estiverem nos tempos das cerejas
terão também sofrimentos de amor

Amarei para sempre os tempos das cerejas
são desde aqueles tempos que guardo no coração
uma ferida aberta

E a Senhora Fortuna, a mim oferta
não poderá jamais cessar minha dor
Eu amarei sempre os tempos das cerejas
É o suvenir que guardo no peito
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P.S: vai sair um filme sobre Dom Hélder ou já saiu, algo assim.

O Único Post deste Blog

O tempo vai passando e a gente que posta sabe que alguns dos posts mais importantes vão sumindo no meio dos arquivos, numa avalanche de nossa fúria blogueteira. O que é importante vai cedendo lugar ao que é mais novo, e assim é o mundo do blog.

Por outro lado, eu queria contar uma coisa que me aconteceu noutro dia: estavamos eu e mais dois alunos na Poli. Eles faziam prova e eu sem o que fazer entrei no site do Nassif, onde fiquei sabendo da notícia no post abaixo. Na saída não contive meu ultraje e comentei com meus alunos que são colombianos. Eles nem faziam idéia do que eu estava falando. Corrupção? Na Colômbia os denunciantes já estariam mortos - me disseram. Fora isso, a reação à informação foi similar àquela que eu já ví muitos brasileiros, amigos meus, fazerem: "é sempre a mesma coisa..."

Por de trás dessa atitude de "é sempre a mesma coisa" se escondem, cristalizados, anos, gerações de submissão, de uma sensibilidade treinada a não prestar muita atenção por que "é sempre a mesma coisa..." "desse mato nunca sai coelho.."

Eu fiz um esforço de explicar para meus alunos que as coisas estão mudando, que denúncias e investigações como essas são coisa nova no Brasil, e se por um lado, as máfias instutuídas há décadas conseguem muitas vitórias, há algo de novo e tenho esperanças de mudanças a longo prazo. E mesmo que as minhas esperanças se frustem, eu ainda prefiro sofrer em ficar sabendo do que aceitar o que diz a Veja como uma bobinha ingênua.

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O Único Post

Para todos aqueles que vivem no Brasil e estão meio perdidos entre Veja, Satiagrarra e grampos, eu gostaria que este post fosse o único, que ele estivesse sempre como o primeiro post que surge ao se abrir o blog, pois sua importância é imensa.

O que está acontecendo no Brasil? Como o jornalista Jailton de Carvalho explica melhor, copio aqui um resumo das palavras deles em programa censurado por Gilmar Mendes, e assino em baixo.


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“O que incomoda mais, pra muita gente é a atuação da policia federal. Esse ataque ao Paulo Lacerda, ao Protógenes e a outros setores da policia federal na verdade tem um objetivo: que é acabar com as grandes operações de combate á corrupção da policia federal. Em 2004 foi quando o país tomou conhecimento que a policia federal estava fazendo grandes operações de combate à corrupção, que a policia não estava mais restrita ao combate ao narcotráfico. Até 2002 a policia federal era a policia de combate ao narcotráfico: (referindo-se às manchetes) “tantas toneladas de maconha...” ai tinha aquela queima. O grande ápice da policia federal era queimar toneladas de drogas, com o ministro da justiça presente, e isso era o grande acontecimento da policia federal. Depois ela mudou: começou a combater corrupção. Em 2004 começou a descobrir relações entre o crime organizado e alguns advogados. E ai a OAB reagiu contra isso: não pode filmar, não pode divulgar fotos de presos, não pode algemar. Essa discussão começou com a OAB, principalmente em São Paulo, e ai o ministro Tomás Bastos, Paulo Lacerda, até fizeram uma cartilha, um procedimento interno regulando o uso de algemas, fotografias. Ai depois teve o seguinte: não pode mais levar presos de colarinho branco no camburão... é uma humilhação, é um constrangimento, É uma ofensa aos direitos humanos. Ai houve o seguinte: tudo isso não teve o efeito de acabar com as grandes investigações de combate à corrupção, e ai começou a se atacar as escutas telefônicas.”
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Concordo com Jailton de Carvalho: o que está ocorrendo não tem a ver com a Satiagrarra especificamente. Como Leandro Fortes aponta, no mesmo programa, há diversas outras investigações contra corrupção ocorrendo neste momento, então por que a Satiagrarra foi eleita pra levar pau? Também não tem a ver com um monstro chamado Daniel Dantas – não especificamente. O que está acontecendo de novo e importante no Brasil deste começo de milênio é o fato de a polícia estar montando um combate à corrupção – talvez não a polícia unida, como um todo, mas grupos dentro dela. E de estar sendo suportada por algumas instâncias menores do poder jurídico. O fato de que essa operação específica atinge e incomoda o ministro do Supremo faz dela o alvo preferencial.


Copio aqui os links para a entrevista completa
parte 1
parte 2
parte 3

de Sanctis vai a Julgamento

Concordo que este é o país da piada pronta, no entanto, a piada quase me fez chorar. De Sanctis mais parece Jesus Cristo nessa parada, o criminoso é outro, mas é ele quem vai pagar.

E tudo se desenrola de forma a parecer que não tem nada a ver com o caso Satiagrara, com Daniel D'antes ou com Gilmar Mentes, que manda e desmanda. O pobre do de Sanctis está sendo julgado e periga ser por isso afastado, por causa de um russo do Coríntias, algo assim.

Quem tiver estômago que siga.

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No próximo dia 26 será o julgamento do juiz Fausto De Sanctis. Ele é acusado em dois processos disciplinares pelo corregedor Nabarrete. O corregedor pede seu afastamento. O julgamento será feito pelo Órgão Especial do TRF, em sessão especial que começa às dez da manha.


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Só para desestressar

Cueca Japonêsa é a nova esperança dos Cascões do mundo

Nova cueca para astronautas deverá aguentar uma semana sem mau cheiro, segundo a Agência de Investigações Aeroespaciais do Japão. Não ficou claro quem vai cheirar a cueca no espaço, no entanto, as esperanças dos adeptos do ecológico banho só aos sábados espalhados pelo mundo crescem em escala logarítmica, reporta mr. Spock, nosso correspondente especial.

Tibet

Com o whitewash ocorrido durante as olimíadas, pode ser que o Tibet tenha sumido de cena, mas a barbárie continua

Veja notícia na BBC

Quero apenas aproveitar para fazer uma homenagem a uma das minhas cantoras favoritas, a Bjork - grande criadora de polêmicas - que gritou Tibet num show em Shanghai, causando uma torrente de protestos dos mesmos e vídeos raivosos contra a cantora no youtube. Dá-lhe, Bjork!

Recordar é Viver

Está no Cidadania o vídeo em que Cid Moreira foi obrigado a ler carta do nosso querido Leonel Brizola

clique aqui




recordar é viver

20 de mar de 2009

Que é que o Gilmar fez desta vez?

O sinistro ministro Gilmar Mendez me faz recordar aquela piada dos tempos da vaca-lôca em que a Princêsa Diana estava vivíssima, causando, como dizem os mais jovens, com seus casos e os paparazi:

O secretário chega pra Reinha e pergunta "A senhora ficou sabendo da última sobre a vaca louca?" ao que a Rainha responde "Que é que a Diana fez desta vez?"


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A última foi telefonar pro Michel Temer e mandar tirar um programa do ar.
Como sempre o Cloaca News mata a pau, por isso é melhor dar uma olhada lá (siga o link!)

Vem aí

Com as eleições pra presidente se aproximando eu não me espantaria que um novo escândalo do tipo "mensalão" surja por ai... ele parece já estar sendo gestado. Não que toda corrupção não deva ser punida, mas desconfio da intenções purinhas de Jarbas.

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Sempre Livre





Seguindo idéia de Flávio Médici no Entrelinhas... A mais nova propaganda do absorvente íntimo bem que podia ser assim...

19 de mar de 2009

Patuléia

Dia destes fui parar no artigo de Hélio Gaspari, “Deixem Lula falar com a Patuléia”. O uso da palavra “patuléia” me fascinou. Primeiro porque o uso de termos “pretensamente sofisticados” em geral associo a nomes pretensiosos de onde nunca vem boa coisa. Mas espero muito mais do Hélio Gaspari. Então li o artigo, e o uso da palavra não me pareceu pejorativo. No entanto não concordo com Hélio. Há sim muito “mais cartões para distribuir ao andar de baixo”, e “o baú da transferência de renda” não se esvaziou.

Mas encontrei referências interessantes à Guerra da Patuléia, a guerra civil que ocorreu em 1846 na região do Minho, após a Revolução da Maria da Fonte. Esta última, ocorrida em 1842, teve como estopim uma reforma fiscal realizada pelo governo de Costa Cabral, contra a qual se insurgiram os estratos mais pobres da população. Estão entre as medidas a implantação de impostos prediais, com o recenseamento da propriedade e a feitura de matrizes prediais, chamadas pelo povo as papeletas da ladroeira, uma lei que proibia que os enterros fossem feitos nos cemitérios das igrejas, e o surgimento de uma taxa de covato, com a qual o povo deveria passar a pagar por despesas de enterro nos cemitérios municipais. Na manhã do dia 22 de março um grupo de vizinhos, onde predominavam mulheres, decide proceder ao enterramento da defunta na Igreja do Mosteiro de Fonte Arcada, sem autorização da Junta de Saúde, e as autoridades decidem intervir. O restante se lê na Wikipédia.

Esse negócio todo de reformas fiscais, de implantação de um governo liberal, de transferência de renda para cima, de golpes palacianos... me fazem relembrar que comecei isso com o texto de Hélio. E daí também me veio à cabeça o e-mail dirigido à Hélio que a Susan Sontag baixou pelo pela rede net-mãe-de-santo no Blog do Hipopótamo Zeno.

Já que o Lula fale com a Patuléia, enquanto o sorbonado FH recebe mais diplomas de Oxford, pra mim ta de ótimo tamanho. Hélio tem razão: cada macaco no seu galho. Enquanto isso o tucanato parece estar inventando um novo termo com que analisar sociologicamente o possível contexto de sua vitória: o período “Pós-Lula”.

É para esse povo tucano e seus aliados nessa luta contra a opressão da opinião pública que deixo esta homenagem da patuléia: trecho de Morte e Vida Severina de uma outra espécie de Cabral: o João Cabral de Melo Neto.

Sobre Assim Nasceu a Blogosfera

O texto do professor Roberto Grün (UFSCar) intitulado “Guerra cultural e transformações sociais: as eleições presidenciais de 2006 e a "blogosfera"” foi postado no Blog de Coxipodaponte sob o título “E assim nasceu a blogosfera”.

As vezes me sinto meio mal em tentar disputar termos e significados com alguém que além de tudo também está à esquerda (dizer só que temos em comum a sociologia não é muito, pois FHC é o "príncipe dos sociólogos" e isto depõe contra nós). Então, antes de mais nada devo dizer que considero o texto algo que deva ser lido por todos aqueles que sentem a necessidade de repensar os eventos políticos recentes e para os blogueiros em específico, há reflexões intrigantes e que levam a pensar sobre a importância da nossa participação política. Então que os pontos com os quais discordo aqui não sirvam jamais para desencorajá-los da leitura.


Então vá lá: Sobre a parte II, me parece que o autor se preocupa demasiado em provar a possível veracidade dos rumores na “blogosfera” sobre quais seriam de fato as ações que Alkmin tomaria se eleito. Me parece que, de um ponto de vista sociológico, isto não é possível, pois vejo a sociologia como ciência interpretativa, não é possível, de maneira nenhuma, fazer dela uma ciência previsiva, uma espécie de oráculo científico. Dessa forma, concordo com o professor que “dizer que existiu ou não a conspiração é, epistemologicamente, um exercício sem saída”. Então porque tentar defender a factualidade dos rumores da esquerda, ao invés de simplesmente notar que eles tinham razões? De qualquer forma, é muito natural que eu discorde dele neste aspecto, pois é uma questão de Weber x Durkheim.

É possível, creio, dizer que os grupos que compartilhavam esta crença (que Alkimin faria mais privatizações, que Alkimin não manteria a bolsa família, etc), tinham boas razões para acreditar na veracidade dos ditos boatos - que assim qualificados por outros grupos, têm uma valoração pejorativa sim, mas nem por isso não passam de crenças. Pode-se elencar, do ponto de vista do cidadão que observava as ações políticas do grupo do qual Alkmin fazia parte, várias ações tomadas pelo grupo que corroboravam o medo de que os “boatos” realmente fossem levados a cabo. Deste ponto de vista, não se pode dizer que os “boateiros” estavam certos, pois isto jamais foi comprovado (valei-me meu Sto Marx, Alkmin não ganhou as eleições naquele ano), mas pode-se dizer que os “boateiros” estavam agindo racionalmente – ao tomar como parâmetro ações anteriores do Alkmin, seu alinhamento político com um grupo, as ações anteriores tomadas por membros do grupo no poder, como parâmetro para suas previsões – ao criarem suas previsões.

Ao meu ver, o autor faz uma confusão: cria duas categorias, dois grupos (um o tucanato-mídia-neoliberais e o outro blogueiros), para criar uma oposição entre eles, mas creio que o faz de maneira equivocada. O que quero dizer é que é possível, concordo, verificar que seja de forma voluntária seja forçada, a grande mídia pode ser vista como estando alinhada ao tucanato. Entretanto, não é possível denominar de “blogosfera” um bloco unido de oposição àquele grupo. A “blogosfera” aparece no texto como um grupo homogêneo, mas é impossível dizer que os vários blogs de posição contrária ao candidato e as pessoas que os lêem e comentam tenham a mesma postura política, ou mesmo que tenham acreditado nos mesmos ditos “boatos”. Por outro lado, também fazem parte da blogosfera grupos e blogs alinhados ao tucanato e até grupos cujo alinhamento não é claro, como grupos religiosos, grupos de auto-ajuda, blogs sem posição política, blogs mais direitosos do que aquilo que se possa denominar de alinhados ao tucanato, e por ai vai.

Não estou pretendendo negar que a participação de grupos presentes na blogosfera tenha sido fator importante na correlação de forças dentro de uma disputa semântica. Apenas nego que a blogosfera possa ser vista como um bloco homogêneo ao qual se opõe uma grande imprensa.

O capital simbólico

Devo alertar o leitor que nutro antipatia por Bourdieux (apesar de achar que dentro de certos limites epistemológicos, sua análise de instituições é válida). Mas esses conceitos camisa-de-força tipo “capital simbólico”, e outros como o de “habitus” que parecem sugerir que não é possível pensar em língua nenhuma que não seja o latim dos fundadores católicos das instituições chamadas de universidade...

De qualquer forma, parece que o autor toma sem mais que o capital simbólico do PT era igual à sua figura ética. Na verdade ele não define esse capital simbólico, mas diz que à época o PT via seu capital simbólico se esvair e, pelos exemplos que dá – que são os escândalos de corrupção – o que dá para deduzir é que ele iguala “capital simbólico do PT” à “imagem de partido da ética”. Mesmo se temporariamente eu aceitasse como válida a noção de "capital simbólico": não teria que ser composto de muito mais coisas, do que somente a figura ética Omo lava mais branco?

Vou deixar esta discussão em suspenso, pois não creio num “capital ético do PT” que, como uma rocha homogênea da mais dura e insolúvel do planeta, não sofra as mais diversas fraturas e intrusões. Não pretendo negar que a imagem negativa ligada aos escândalos foi usada por tucanos e que os mesmos não parecessem horrorizados por não conseguir reverter seus resultados por meio destes, fora o uso ambíguo das idéias de programas contra a pobreza, que muitos denunciavam como populistas e assistencialistas, enquanto o candidato Alkimin dizia querer mantê-las e melhorá-las. Por via de um aparente não-alinhamento, a primeira opinião podia ser veiculada na grande mídia por comentadores específicos, enquanto o candidato tentava se apropriar das benesses eleitorais dos projetos.


Concordo que uma abordagem fenomenológica seja importante. De acordo com Husserl a suspensão da crença do que tomamos ordinariamente como fato ou daquilo que é obtido pela inferência por conjecturas diminui o poder daquilo que geralmente aceitamos como realidade objetiva. É preciso pôr em cheque aquilo que tomamos como fato: nem os tucanos são de fato um bloco unido (veja as disputas Alkimin-Serra, que, me parece, atingiram negativamente a própria campanha de Alkimin, e a mais recente que espero com todo carinho será Serra-Aécio) nem a blogosfera é um todo coerente.


Acredito que é possível que eu entendi mal o que o professor disse nesta parte do texto:

“A existência da polissemia social, indicada pelos resultados e contornos da disputa cultural que estamos analisando, permite adiantar uma hipótese sobre a alteração da estrutura social brasileira, especialmente, no subespaço da atividade intelectual. Através da dramática expansão do ensino superior nas décadas passadas, o Brasil recente passou por uma transformação essencial na escala de produção de indivíduos que, potencialmente, podem reivindicar posições na esfera intelectual e política, mas realizou apenas parcialmente uma extensão análoga na oferta de postos para serem ocupados pelos mesmos10. Os descendentes dos "marmiteiros " dos anos 1950 se tornam intelectuais e agentes políticos "extranumerários ": os que reivindicam posições naquelas galáxias sem conseguir as que julgam à altura do seu mérito e, conseqüentemente, tentam criar, ainda que a partir de seus capitais limitados, uma dinâmica de alteração da configuração cultural da sociedade11.”

Posso entender que o bourdianismo leve a uma interpretação de que aqueles que geram dissenso são os mesmos que não conseguem uma posição nas instituições (sejam elas da mídia, do poder ou das universidades). O dissenso teria como objetivo modificar a sociedade numa direção que favoreça a obtenção dos cargos que lhes faltam. Bourdieu só pensava assim, por isso é que acho a sua sociologia limitada. Concordo que dá conta de explicar uma parcela pequena das ações, mas não explica todas. Quando digo que a sociologia de Bourdieu é limitada, é porque ele analisa todas as instituições desse ponto de vista funcional e se limita a analisar as ações dos sujeitos sob este ponto de vista institucional.

Como blogosfera é usada como um termo genérico, e aparece quase como única esfera de oposição ao tucanato-mídia-neoliberais, eu acabei me vendo, como blogueira, chamada de descendente dos marmiteiros dos anos 50, então fui pesquisar o que isso significa. Encontrei um texto muito interessante da historiadora Michelle Reis de Macedo, que elucida várias questões. No contexto das eleições para presidente em 1945, surgem duas forças: a UDN e o PSD. Marmiteiros foi um termo empregado pelo PSDista Hugo Borghi, (leiam, os detalhes... o diabo está nos detalhes...) para denominar positivamente a massa dos queremistas que não queriam nem o general Eurico Dutra nem o brigadeiro Eduardo Gomes: eles queriam era Getúlio. Esse grupo, formado por populares em grandes números, aparece nas análises da autora como um terceiro grupo que causou medo tanto em brigadeiristas como em dutristas. Getúlio, que deveria querer continuar no poder, não fez nada para amainar os ânimos. Resultado: grandes passeatas, e o fim desse processo é a deposição de Vargas.

Nesse contexto, há várias interpretações possíveis para marmiteiros:
1. Massa de trabalhadores assalariados de baixa paga que quer que as políticas de proteção às leis trabalhistas tenham continuidade. Não fosse que eu já não tenho muita proteção das leis trabalhistas – pois nem carteira assinada tenho – gostaria de fazer parte de um grupo assim.
2. Ralé. Peraê, mermão: sou pobre, mas sou limpinha.
3. Massa de desvalidos. Tudo bem, sou classe média mas me considero da massa dos desvalidos.
4. Terceiro Grupo. Não me parece, deste ponto de vista, uma pecha má. A metáfora apontaria para a necessidade de enxergarmos, de forma análoga com o que foi feito para os marmiteiros no texto de Michelle Reis de Macedo, um terceiro grupo que abarca todos aqueles que estão na blogosfera, mas cujos interesses não são fisiológicos, não estando ligados diretamente aos grupos que disputam o poder, mas a um terceiro interesse. No caso dos marmiteiros de 45 o interesse era a manutenção das leis trabalhistas. No caso dos blogueiros esse interesse eu deixo em aberto à contribuição de outros.

18 de mar de 2009

FH: Vale a Pena Ver de Novo

Esta é a entrevista de éfeagá no programa Hard Talk. Pela primeira vez na vida vi um jornalista botando ele contra a parede, e me comovi. Ele fica realmente parecendo o que ele é: Presidente da República das Bananas, que é a versão e projeto dele para o Brasil.

primeira parte
segunda parte

16 de mar de 2009

O Projeto do Senador Azeredo

Fiquei sabendo, pelo site do Idelber sobre o projeto do Senador Azeredo para regulamentar a internet.

Se você der uma olhada no projeto, perceberá que ele não parece (de primeira vista) nada de mais. Sabemos que crimes praticados através desse meio – como extorsão e calúnia – devem ser regulamentados.

No entanto, ao ler o projeto, percebi que há certos termos muito amplos, e eu não sou jurista nem nada, mas me pareceu que realmente pode criminalizar práticas cotidianas na rede.

Mas o problema é mais embaixo. Cito algumas passagens do texto no blog do Sérgio Amadeu

"Como tem afirmado Marcelo Branco e o Porf. Pedro Rezende é necessário estabelecer os marcos do que é direito antes de criminalizar as pessoas. Sem dúvida, se definirmos que a privacidade é um direito na navegação em rede, a identificação do rastro digital passa ser uma violação de direitos.”

“Outro exemplo: se temos direito a recontar histórias e a brincar com personagens da mídia em nossas casas, deveríamos também garantir o direito dos internautas recriarem suas próprias versões de séries e de personagens da mídia. Enfim, como nos ensinou John Dewey a sociedade deve ser construída sobre direitos e não a partir somente de deveres. Os deveres nascem dos direitos.”

“Chegamos a dizer que o projeto teria que vir pela positiva, como um projeto que afirmasse direitos civis, e que seríamos árduos defensores de algo assim, mas que ficava difícil desentortar um projeto desse.”

Vídeo: discurso de Toshio Kawamura em frente à Folha

Não sei por que não posso mais postar vídeos do youtube diretamente no blog, mas não importa. Para quem viu, vai chorar de novo, quem não viu, vai chorar pela primeira vez

aqui vai o link





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Isso explica tudo

Copio abaixo a frase do Conversa de Bar que achei nos comentários ao post Mídia - Caso "Ditabranda"

assista o vídeo aqui

""É possível contar uma grande mentira dizendo apenas verdades. A Folha estava certa: É possível, e ela sabe como."

15 de mar de 2009

Figura para o Post sobre o Dia da Mulher


a legenda da foto, no blog de onde foi retirada, diz: "Não é machismo. É cavalheirismo!"

Dia da Mulher é a Pôrra

Sei que estou atrasada para o dia internacional da mulher, mas não tem problema, pois o dia da mulher também está atrasado... Que eu saiba ainda não chegou. Não sei se está temporariamente detido por alguma excomunhão, se está sendo violentado num canto qualquer da África, se perdeu o pique e está em casa pensando no seu salário, se deixou de fazer a viajem até aqui, por causa do marido (ver 4o parágrafo).

Por isso resolvi parafrasear este ser humano fantástico que disse ao microfone que “Ditabranda é a pôrra”, para festejarmos o atraso do dia, e declarar, seguindo Donna Haraway, que gostaria de me juntar à “tradição utópica de imaginar um mundo sem gênero”.

As diferenças entre as pessoas são tantas... De diferenças individuais - gosto, empenho - que podem contribuir para grandes diferenças profissionais entre as pessoas (de ambos os sexos), passando por diferenças sociais (ou que a cultura impinge a cada sujeito), diferenças devidas ao nascimento e pertencimento a uma classe, cultura local, educação, religião, entre outras, diferenças injustamente impingidas pela forma como as diversas culturas estereotipificam o ser humano (quero chamar a atenção em específico o tal do "conceito" de raças e citar passagem do texto destes pesquisadores da UEM: " Atualmente, o conceito de raça quando aplicado a humanidade causa inúmeras polêmicas, porque a área biológica comprovou que as diferenças genéticas entre os seres humanos são mínimas, por isso não se admite mais que a humanidade é constituída por raças.”, fato, de resto, bastante conhecido do público que se interessa pelas pesquisas no campo genético).

O que dizer da diferença genética entre os sexos? Quimeras. Estes “fatos” científicos já foram muitas vezes construídos e desconstruídos (a respeito da desconstrução dessas “verdades” científicas quero deixar uma homenagem póstuma a Jay Gould, e seu livro “A Falsa Medida do Homem”, menção honrosa pela defesa do fronte de uma batalha que ainda está sendo travada até os dias de hoje)

Outro dia mesmo respondi a uma pergunta que me foi feita “Você realmente acha que não há diferenças entre homens e mulheres?”. Redireciono aqui, para minha resposta.


Não deixo de concordar com Maurício, do Blog Cinema e Outras Artes, com a figura patriarcal que tem o dia da mulher. O dia da mulher devia chegar pra sempre, ser sempiterno. Sabemos que não é. Está atrasado, e eu sinto o atraso cada vez maior, seja por causa das notícias que chegam de todos os cantos do mundo, seja nas entrelinhas da postagem em blogs de uma figura que o blogueiro posta sem comentários críticos, por achar graça e concordar com o pensamento "mulher=débil mental" inplícito naquilo que ele acha que é uma piada realmente hilária. Quanto a mim, descobri que piadas machistas a respeito de mulheres serem imbecís contadas por mulheres inteligentes deixa muito homem machista desmontado, sem saber como reagir.

Preconceito e Histórias de Família

Coube a uma tia-avó me introduzir ao estereotipo de negro. Eu morava com minha avó no Pari e fiz uma amiguinha, a filha de uma vizinha. Num desses dias em que acabei minha lição de casa, pedi à minha avó pra ir brincar com a Magda. Minha tia-avó entrou na conversa assim “a negrinha?”. Isso foi dito com uma entonação de nojo, que me marcou a memória. Felizmente eu abominava a minha tia-avó, por isso nunca deixei de ir brincar com a Magda. Devo dizer que a minha avó é uma das lembranças mais doces que tenho. Da boca dela jamais saíram agudezas. Eu nem discordava de ninguém quando estava com ela, pois sabia que ela não gostava disso. Que Sto Marx a tenha.

Morei com ela no Bairro do Pari, como já disse. O que eu não disse é que, naquela época ele era o bairro mais encortiçado de São Paulo. A vizinhança era uma comunidade das que se vê em poucas localidades de São Paulo hoje em dia: todos se conheciam, as crianças brincavam na rua e tinha sempre a mãe ou o pai de alguém de olho na mulecada. Havia uma distinção entre meninos e meninas: meninos tomavam conta da rua, meninas brincavam dentro das casas. Uma coisa de território, que só depois, examinando minhas recordações, vim a notar, pois devo à minha avó e à minha mãe o feito de poder circular entre as duas formas de socialização. Minha avó, como disse, nunca botou qualquer empecilho; já a minha mãe, ao saber que eu queria ir brincar na rua, me deu esta lição: "quando alguém vier pra cima de você, nem pergunte o que é: dá-lhe um sopapo, joga ele no chão e só depois pergunta o que foi". Pode parecer hilário, ou que eu saí por ai puxando briga, mas não foi o que ocorreu. Depois de ouvir isso da minha mãe, nunca me coloquei na posição de vítima. Ao me recordar, vejo que as outras meninas saiam correndo pra dentro de casa, a chorar, por qualquer puxão de trancinhas que um menino lhe aplicasse. Já a minha introdução a esse universo masculino se deu assim: Foi logo após ouvir o conselho de mamãe. Fui com um brinquedo (na verdade era uma torneira que virou brinquedo) para fora do portão e sentei-me na soleira. Veio um guri e deu um baita puxão na minha trancinha esquerda. Eu me levantei e fui em punhos (ou tapas, não me lembro bem) ao sujeito. Lembro-me da cara dele de surpresa e confusão, a fugir de mim, sem saber como reagir. Meninas nunca faziam isso. P.S. Eu não era maior que ele.

Fico pensando nestas outras meninas que foram educadas assim. Levou um puxão de trancinha, corre chorando pra casa, que é o seu lugar. O que você estava fazendo na rua?

Ainda hoje ouço histórias de mães da minha idade, que, bem observadoras, notaram que o tratamento de meninas e meninos é diferenciado. Uma dessas histórias é assim: Essa mãe leva a filha pra sala de aula, pré-primário. Chegando lá vê que as crianças estão brincando. Observa o espaço. Meninas se juntam em cantinhos e brincam sentadas, enquanto meninos correm pelo espaço inteiro. Um menino vem reclamar com a professora que uma das garotas pegou o carrinho (brinquedo da escola) e não lhe dá. A professora dá razão ao menino: com todo o jeito, retira o carrinho da menina e sugere que não é brinquedo adequado para ela. Aponta os brinquedos que estão à sua disposição.

É... meus amigos... a história é real. E é de anteontem.

Um dia desses (na verdaade faz uns dois anos) recebi um e-mail com o qual concordo. Dizia: “Preconceito é doença, e deve ser tratado”. Um amigo gay tinha mandado este em um spam, vindo de uma organização que propunha reflexões acerca do preconceito. Gostaria de ter feito o tratamento proposto, e já não me lembro mais qual foi o compromisso que me impediu de fazê-lo.

Na minha família não há só histórias bonitas sobre preconceito: cresci ouvindo aqueles motos “negro isso...” “negro aquilo...” (mas não a minha avó – ela preferia ficar em silêncio do que falar bobagem... espero que eu tenha herdado isso dela)

Uma história da minha avó, vim a conhecer só depois de ela morta. Recém casada com meu vô que morreu cedo (minha avó não tem nada a ver com isso), Veio a primeira briga feia – dessas que ocorrem com qualquer casal. Ele a empurrou e levantou a mão pra bater. Ela disse que não fizesse isso, senão ela iria revidar. Parece que disse “Eu te furo um olho”. Contam que meu avô – a história é conhecida da família, pois ele, confuso e com medo da minha avó, comentou com alguns parentes – disse “Você vai fazer o quê? É mais fraca do que eu” ao que minha avó (Sto Marx a tenha) respondeu: “É... mas você também dorme...”. Olha que coisa! E ela nem era leitor de Hobbes, para o qual destaco uma passagem em que ele diz que nenhum homem é tão fraco que não seja capaz de matar outro homem (isso faz parte da argumentação dele em O Leviatã contra as escolas que supunham que o poder político tenha se originado da força bruta).

Ai, avó... Se você está ai, ao lado de Sto Marx, quero deixar uma homenagem que não pude te fazer em vida.

Também quero ser excomungada

Achei o post, publicado no Amálgama, tão bom que não vale a pena escrever a respeito. Vai lá ler. É, realmente, uma das melhores formas de entrar em luto pelo "dia da mulher".

14 de mar de 2009

Manifesto Espiritual de uma Materialista Atéia

Outro dia tive uma conversa com outro materialista e chegamos à conclusão que há uma diferença entre nós: como ele eu sou atéia e materialista, só que eu acredito em espírito, ele não.

Mas que samba do crioulo doido, que coisa é essa? Como é possível ser atéia, ser materialista e acreditar em espírito? Vou me explicar por partes, porque acredito que a discussão dessas noções é muito importante. Vou nessa ordem: Ateísmo, Materialismo e Espírito.

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Ateísmo

Ateu é, primeiramente, alguém que tem uma crença, por isso ele é diferente do agnóstico. Para o agnóstico a questão de se existe um deus ou não está suspensa (com isso se quer dizer que a questão é deixada de lado, sem resposta) ou por achar que não é possível respondê-la, ou por considerá-la uma questão sem importância. Eu acredito que é possível responder a questão e que essa resposta é muito importante, por isso sou atéia. O agnóstico pode ou não ser crente. Ele é crente se acredita – como Santo Agostinho e a fábula do anjo disfarçado de guri tentando botar o oceano num buraquinho – que a mente humana não alcançaria a resolução do enigma. Ou seja, ele acredita que existe a possibilidade de haver mais coisas entre o céu e a terra. O agnóstico não é crente quando o que ocorre é que ele apenas deixa a questão de lado, por considerá-la uma grande bobagem (eu também não sei muitas coisas sobre o ciclo de vida do siri, mas isso não faz de mim uma crente. P.s: não acho bobagem a vida do siri)

Já o ateu, como adiantei, é um crente, pois ele acredita que não existe um deus. Por isso o diálogo entre teístas e agnósticos é sempre mais fácil do que entre teístas e ateus. Um exemplo é uma história que ocorreu comigo: Num dos cursos onde dei aula, havia um professor de Francês que tinha por hobby me pentelhar. Ele vinha da Costa do Marfim e acreditava em espíritos, algo como que as crenças de candombé. Então, certa feita, quando ele me perguntou algo como que se eu acreditava que haviam coisas entre o céu e a terra, eu disse que era atéia e perguntei como se diz isso em Francês. Ele respondeu "fou", ao que eu retruquei que eu sabia o que fou significa e que não, je ne sui pas fou. Dai ele perguntou se eu considerava bobagem tudo aquilo que ele acreditava. Entre a cruz e a espada, eu levantei as mãos como que me rendendo, e disse que sim. Então ele, já bravo, disse que eu não respeitava a crença dele. Eu disse que não se tratava disso, e que não fui eu quem levou a conversa às vias de fato, que eu não ataquei a crença dele, apenas respondi à pergunta, e que era ele quem não respeitava a minha crença. Eu acredito que é bobagem, ponto. Vê só? Não há diálogo possível entre estas duas espécies de crentes. Há a possibilidade de ser político, de dizer mentiras, ser cortês, mas se chegam às vias de fato dá briga.

Há a possibilidade sim, de encontrar coisas belas nessas crenças e de ser capaz de ver que o afã por uma sociedade justa tem algo de cristão, mas isso não implica em crença teísta.

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Meus antídotos contra o teísmo, ou porque sou atéia

Não é preciso comentar sobre a injustiça do mundo: é só olhar para a África, por exemplo, e veremos o mais bem acabado retrato do que eu quero dizer.

Então, em que pé fica o deus dos teístas? Se ele é onisciente e onipotente, decorre dai três hipóteses:

1ª hipótese: Deus é sádico. Se tudo ocorre conforme a sua vontade, então ele brinca com as vidas de seres humanos inocentes e impotentes, como o moleque que se diverte em explodir formigueiros. Não passaria de um filho-da-puta. Portanto, rezar para um ser tão irascível não tem lógica, pois ele fará o que lhe der na telha. Sustentar a hipótese de que deus existe em confronto com os fatos de tantas barbaridades me parece, de resto, uma tarefa vã.

2ª hipótese: a minha preferida: deus não existe e ponto. Tudo o que ocorre no mundo é porque a matéria existe (há várias teorias de surgimento do universo), houve o surgimento do planeta Terra e dos seres humanos. O homem é o lobo do homem, e é por isso que há tanta barbaridade. No entanto, a questão do homem ser o lobo do homem não é de natureza "natural", mas política.

3ª hipótese: Deus existe, mas não intervém. Essa é a hipótese do deísmo, do qual falarei abaixo. Implica em jogar fora a idéia de um deus interventor no mundo. Mas, se ele não intervém, isto implicaria ou num deus que não se importa, e por isso mesmo sádico, retornando à primeira hipótese, ou num deus IMpotente, ao invés de onipotente. Há variações nessa hipótese, mas de qualquer forma não vale a pena rezar por ele, pois ele não intervirá, ou não poderá intervir.


Outro termo nesta equação é o deísmo. O deísmo constrói um outro tipo de deus: um deus que constrói o mundo, com suas leis, e a partir deste momento, não intervém. A imagem d'O Relojoeiro Cego, de Dawkins, não é ruim, apesar de que eu não concordo com uma dos termos do debate que se deu entre ele e William Paley, pois ambos têm um ponto em comum, que é: eles aceitam que haja o relógio.

O “Relógio” seria uma metáfora para o mundo e suas leis. Neste modo de ver, não há acidentes nem escolha: todo o funcionamento do mundo, desde a grande explosão até o comportamento do ser humano funciona dentro destas engrenagens. Pelo argumento de Dawkins, por exemplo, o comportamento humano se reduz a estratégias dos genes para (o gene, não o ser humano) sobreviver. Com isso ele cria uma nova entidade, um ser, chamado Gene, que faz estratégias, sendo que o ser humano e seu livre arbítrio não passam de ilusão.

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Materialismo

Materialista é uma categoria ampla: alguns deles acreditam que só há explicações materiais para os fenômenos humanos. Há versões do materialismo que (sou levada a crer) transformam o “Material” num outro deus; Um deus controlador de tudo. O Capital se transforma assim, de pseudo-ator, em ator.

Mas há outros materialistas. Entre as diversas variações possíveis, creio ser materialista por não acreditar num Idealismo puro (como explico em outro post), apesar de não acreditar num materialismo puro. Como explico, creio que fenômenos "material” e “ideal” não são fenômenos distintos. O problema com estas noções é muito mais velho do que nós e está imbuído na nossa forma de pensar, pois somos herdeiros de uma tradição filosófica (que vem dos gregos antigos e que continua pelos tempos nas categorias com as quais raciocinamos) que pensava o mundo a partir de dualidades: cabeça-corpo, homem-animal, razão-instinto, homem-mulher,criança,escravo, idéias-formas (categorias platônicas), espiritual-material.

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O Espírito

Estas questões todas postas, eu me pergunto: É possível separar o homem de seu espírito? O que vêm a ser “espírito”?

Apesar dos fenômenos - material e ideal, por exemplo - não serem de fato fenômenos distintos, apesar da separação ser de certo modo artificial, também não é possível dizer que ela não ocorra, ou que não podemos usá-la para analisar a vida humana em seus momentos. Todo ser humano passa pelo momento da reflexão, da escolha e da ação (ou não-ação, que pode ser considerada forma de agir). Se considerássemos que todos estes “momentos” se dão no tempo real em momentos distintos (o que não é verdade, pois agimos enquanto pensamos e agimos sem pensar e refletimos sobre a ação depois de agir), ao considerarmos toda a sociedade humana podemos dizer que os momentos “pensar” e “agir” não estão sincronizados de forma que se possa compor com eles “movimentos” da sociedade: não temos fases "Ideal" e "Material".

Estas dualidades que herdamos na nossa forma de pensar devem ser objeto de reflexão crítica e não deve-se, suponho, tratá-las como objetos arcaicos, destinados à lata de lixo. (Recicle!:). Ao descartar um dos pólos desta ambiguidade, o resultado é que conservamos o outro, não como uma categoria que dá conta de tudo, mas como categoria perneta, amputada do outro membro com o qual nasceu. O descarte não redunda, penso, numa nova forma totalizante, que a todos os fenômenos abarca, mas em uma espécie de lobotomia, que desassocia as ambigüidades existentes entre lobo esquerdo e direito.

Acredito que todo ser humano tem um espírito MORTAL. Em outras palavras, o fenômeno ao qual escolho chamar “espírito” acontece junto com a carne e depende dela (talvez a carne também dependa do espírito em algum grau, não só porque inscrevemos na carne nossos rituais e escolhas culturais em formas supérfluas, como a roupa, a tatuagem e a maquilagem, mas também porque a carne está sujeita a todas as escolhas – e suas conseqüências temporárias e duradouras – que fazemos na vida).


O que vem a ser o que escolhi chamar de Espírito? Se o ser humano não é um simples reflexo de seus genes, também não o é um simples reflexo da cultura. A noção de “subjetivo” já está por demais gasta e banalizada para conseguir atingir aquilo que eu creio que a idéia de um espírito mortal atinge. Pois é mais cabível que a idéia de um espírito mortal atinja aquele que pensa muito mais fundo tanto no que o homem tem de aspectos sociais quanto contra-culturais, mas, muito importante também num aspecto moral.

Dos aspectos sociais: decorre da idéia que o ser humano é mais do que um espécime de homo sapiens isolado de seu ambiente. O ambiente em que ele surge foi historicamente constituído e por isso ele é um “ser de sua época” (assim como é um ser de sua classe e posição social, das várias formas como sua sociedade o rotula, do local onde nasceu, etc). Diga-se, de passagem, que a noção de “Meme” é ri-dí-cu-la: é apenas um sofisma com o qual Dawkins tenta dar conta de explicar tudo por seu conceito perneta de Gene.


Para o aspecto que guarda potencialidades contra-culturais (e entendo isto as forças dentro da cultura que tentam contrapor seus aspectos totalitários resultantes das formas de dominação) é importante entendermos que o ser humano não é socialmente determinado. Se fosse só isso, ele não teria uma capacidade que me é cara, da auto-determinação, do livre-arbítrio (entendidos fora da chave liberal) e da revolta. O ser humano faz escolhas dentre suas necessidades, suas possibilidades culturais, econômicas e políticas, mas não é possível determinar qual escolha será feita numa fórmula matemática em que aquelas necessidades e possibilidades apareçam como variáveis. A equação nunca se fechará.


Finalmente, o aspecto moral: a idéia de "subjetivo" não me atinge moralmente quando tento entender o que se perde quando uma vida humana é vítima de violência. Resulte ela em morte ou não. Seja da parte da vítima ou do assassino, do estuprador, do político que se corrompe ou de qualquer um que exerça seu poder sobre o outro. As noções de “subjetivo”, de “forma de pensar” e análogas, são por demais desencarnadas e também remetem a uma noção de ser humano desconectado de sua experiência e ação dentro da sociedade. É para mim preferível subverter uma idéia muito mais intocada pelas diversas formas de materialismo – do reducionismo de Dawkins aos mais bem intencionados ateus – e intocável da parte dos teístas: uma noção virgem – e por isso não banalizada - que está ai, pronta para ser subvertida, para que seja possível talvez, pensar o ser humano pelo dualismo, pela ambigüidade... de uma forma não perneta.