19 de mar de 2009

Sobre Assim Nasceu a Blogosfera

O texto do professor Roberto Grün (UFSCar) intitulado “Guerra cultural e transformações sociais: as eleições presidenciais de 2006 e a "blogosfera"” foi postado no Blog de Coxipodaponte sob o título “E assim nasceu a blogosfera”.

As vezes me sinto meio mal em tentar disputar termos e significados com alguém que além de tudo também está à esquerda (dizer só que temos em comum a sociologia não é muito, pois FHC é o "príncipe dos sociólogos" e isto depõe contra nós). Então, antes de mais nada devo dizer que considero o texto algo que deva ser lido por todos aqueles que sentem a necessidade de repensar os eventos políticos recentes e para os blogueiros em específico, há reflexões intrigantes e que levam a pensar sobre a importância da nossa participação política. Então que os pontos com os quais discordo aqui não sirvam jamais para desencorajá-los da leitura.


Então vá lá: Sobre a parte II, me parece que o autor se preocupa demasiado em provar a possível veracidade dos rumores na “blogosfera” sobre quais seriam de fato as ações que Alkmin tomaria se eleito. Me parece que, de um ponto de vista sociológico, isto não é possível, pois vejo a sociologia como ciência interpretativa, não é possível, de maneira nenhuma, fazer dela uma ciência previsiva, uma espécie de oráculo científico. Dessa forma, concordo com o professor que “dizer que existiu ou não a conspiração é, epistemologicamente, um exercício sem saída”. Então porque tentar defender a factualidade dos rumores da esquerda, ao invés de simplesmente notar que eles tinham razões? De qualquer forma, é muito natural que eu discorde dele neste aspecto, pois é uma questão de Weber x Durkheim.

É possível, creio, dizer que os grupos que compartilhavam esta crença (que Alkimin faria mais privatizações, que Alkimin não manteria a bolsa família, etc), tinham boas razões para acreditar na veracidade dos ditos boatos - que assim qualificados por outros grupos, têm uma valoração pejorativa sim, mas nem por isso não passam de crenças. Pode-se elencar, do ponto de vista do cidadão que observava as ações políticas do grupo do qual Alkmin fazia parte, várias ações tomadas pelo grupo que corroboravam o medo de que os “boatos” realmente fossem levados a cabo. Deste ponto de vista, não se pode dizer que os “boateiros” estavam certos, pois isto jamais foi comprovado (valei-me meu Sto Marx, Alkmin não ganhou as eleições naquele ano), mas pode-se dizer que os “boateiros” estavam agindo racionalmente – ao tomar como parâmetro ações anteriores do Alkmin, seu alinhamento político com um grupo, as ações anteriores tomadas por membros do grupo no poder, como parâmetro para suas previsões – ao criarem suas previsões.

Ao meu ver, o autor faz uma confusão: cria duas categorias, dois grupos (um o tucanato-mídia-neoliberais e o outro blogueiros), para criar uma oposição entre eles, mas creio que o faz de maneira equivocada. O que quero dizer é que é possível, concordo, verificar que seja de forma voluntária seja forçada, a grande mídia pode ser vista como estando alinhada ao tucanato. Entretanto, não é possível denominar de “blogosfera” um bloco unido de oposição àquele grupo. A “blogosfera” aparece no texto como um grupo homogêneo, mas é impossível dizer que os vários blogs de posição contrária ao candidato e as pessoas que os lêem e comentam tenham a mesma postura política, ou mesmo que tenham acreditado nos mesmos ditos “boatos”. Por outro lado, também fazem parte da blogosfera grupos e blogs alinhados ao tucanato e até grupos cujo alinhamento não é claro, como grupos religiosos, grupos de auto-ajuda, blogs sem posição política, blogs mais direitosos do que aquilo que se possa denominar de alinhados ao tucanato, e por ai vai.

Não estou pretendendo negar que a participação de grupos presentes na blogosfera tenha sido fator importante na correlação de forças dentro de uma disputa semântica. Apenas nego que a blogosfera possa ser vista como um bloco homogêneo ao qual se opõe uma grande imprensa.

O capital simbólico

Devo alertar o leitor que nutro antipatia por Bourdieux (apesar de achar que dentro de certos limites epistemológicos, sua análise de instituições é válida). Mas esses conceitos camisa-de-força tipo “capital simbólico”, e outros como o de “habitus” que parecem sugerir que não é possível pensar em língua nenhuma que não seja o latim dos fundadores católicos das instituições chamadas de universidade...

De qualquer forma, parece que o autor toma sem mais que o capital simbólico do PT era igual à sua figura ética. Na verdade ele não define esse capital simbólico, mas diz que à época o PT via seu capital simbólico se esvair e, pelos exemplos que dá – que são os escândalos de corrupção – o que dá para deduzir é que ele iguala “capital simbólico do PT” à “imagem de partido da ética”. Mesmo se temporariamente eu aceitasse como válida a noção de "capital simbólico": não teria que ser composto de muito mais coisas, do que somente a figura ética Omo lava mais branco?

Vou deixar esta discussão em suspenso, pois não creio num “capital ético do PT” que, como uma rocha homogênea da mais dura e insolúvel do planeta, não sofra as mais diversas fraturas e intrusões. Não pretendo negar que a imagem negativa ligada aos escândalos foi usada por tucanos e que os mesmos não parecessem horrorizados por não conseguir reverter seus resultados por meio destes, fora o uso ambíguo das idéias de programas contra a pobreza, que muitos denunciavam como populistas e assistencialistas, enquanto o candidato Alkimin dizia querer mantê-las e melhorá-las. Por via de um aparente não-alinhamento, a primeira opinião podia ser veiculada na grande mídia por comentadores específicos, enquanto o candidato tentava se apropriar das benesses eleitorais dos projetos.


Concordo que uma abordagem fenomenológica seja importante. De acordo com Husserl a suspensão da crença do que tomamos ordinariamente como fato ou daquilo que é obtido pela inferência por conjecturas diminui o poder daquilo que geralmente aceitamos como realidade objetiva. É preciso pôr em cheque aquilo que tomamos como fato: nem os tucanos são de fato um bloco unido (veja as disputas Alkimin-Serra, que, me parece, atingiram negativamente a própria campanha de Alkimin, e a mais recente que espero com todo carinho será Serra-Aécio) nem a blogosfera é um todo coerente.


Acredito que é possível que eu entendi mal o que o professor disse nesta parte do texto:

“A existência da polissemia social, indicada pelos resultados e contornos da disputa cultural que estamos analisando, permite adiantar uma hipótese sobre a alteração da estrutura social brasileira, especialmente, no subespaço da atividade intelectual. Através da dramática expansão do ensino superior nas décadas passadas, o Brasil recente passou por uma transformação essencial na escala de produção de indivíduos que, potencialmente, podem reivindicar posições na esfera intelectual e política, mas realizou apenas parcialmente uma extensão análoga na oferta de postos para serem ocupados pelos mesmos10. Os descendentes dos "marmiteiros " dos anos 1950 se tornam intelectuais e agentes políticos "extranumerários ": os que reivindicam posições naquelas galáxias sem conseguir as que julgam à altura do seu mérito e, conseqüentemente, tentam criar, ainda que a partir de seus capitais limitados, uma dinâmica de alteração da configuração cultural da sociedade11.”

Posso entender que o bourdianismo leve a uma interpretação de que aqueles que geram dissenso são os mesmos que não conseguem uma posição nas instituições (sejam elas da mídia, do poder ou das universidades). O dissenso teria como objetivo modificar a sociedade numa direção que favoreça a obtenção dos cargos que lhes faltam. Bourdieu só pensava assim, por isso é que acho a sua sociologia limitada. Concordo que dá conta de explicar uma parcela pequena das ações, mas não explica todas. Quando digo que a sociologia de Bourdieu é limitada, é porque ele analisa todas as instituições desse ponto de vista funcional e se limita a analisar as ações dos sujeitos sob este ponto de vista institucional.

Como blogosfera é usada como um termo genérico, e aparece quase como única esfera de oposição ao tucanato-mídia-neoliberais, eu acabei me vendo, como blogueira, chamada de descendente dos marmiteiros dos anos 50, então fui pesquisar o que isso significa. Encontrei um texto muito interessante da historiadora Michelle Reis de Macedo, que elucida várias questões. No contexto das eleições para presidente em 1945, surgem duas forças: a UDN e o PSD. Marmiteiros foi um termo empregado pelo PSDista Hugo Borghi, (leiam, os detalhes... o diabo está nos detalhes...) para denominar positivamente a massa dos queremistas que não queriam nem o general Eurico Dutra nem o brigadeiro Eduardo Gomes: eles queriam era Getúlio. Esse grupo, formado por populares em grandes números, aparece nas análises da autora como um terceiro grupo que causou medo tanto em brigadeiristas como em dutristas. Getúlio, que deveria querer continuar no poder, não fez nada para amainar os ânimos. Resultado: grandes passeatas, e o fim desse processo é a deposição de Vargas.

Nesse contexto, há várias interpretações possíveis para marmiteiros:
1. Massa de trabalhadores assalariados de baixa paga que quer que as políticas de proteção às leis trabalhistas tenham continuidade. Não fosse que eu já não tenho muita proteção das leis trabalhistas – pois nem carteira assinada tenho – gostaria de fazer parte de um grupo assim.
2. Ralé. Peraê, mermão: sou pobre, mas sou limpinha.
3. Massa de desvalidos. Tudo bem, sou classe média mas me considero da massa dos desvalidos.
4. Terceiro Grupo. Não me parece, deste ponto de vista, uma pecha má. A metáfora apontaria para a necessidade de enxergarmos, de forma análoga com o que foi feito para os marmiteiros no texto de Michelle Reis de Macedo, um terceiro grupo que abarca todos aqueles que estão na blogosfera, mas cujos interesses não são fisiológicos, não estando ligados diretamente aos grupos que disputam o poder, mas a um terceiro interesse. No caso dos marmiteiros de 45 o interesse era a manutenção das leis trabalhistas. No caso dos blogueiros esse interesse eu deixo em aberto à contribuição de outros.

4 Comentários:

Anonymous Paulo Cunha disse...

Engraçado... polissemia, ao pé da letra, é algo bastante comum vinda de extensões de sentido de metáforas que se consolidam. Não vem de disputas sociais - ou, pelo menos, nada mais explícito que a própria valorização lexical ou estilística dentro de um grupo linguístico.

Agora, polissemia social é algo que me escapa...

Outra coisa que me escapa é... aventaram a hipótese de uma alteração da estrutura social brasileira. Bem, então eu preciso ver isso, mesmo que a continuação seja um tanto estranha para mim: subespaço da atividade cultural. Já estão subalugando...

Hum, tá... o resto continua bem mais complicado e fortemente discutível, bem além das brincadeiras semânticas.

Não é, e nunca foi, um problema de desequilíbrio entre oferta e demanda de 'postos de poder'. As faculdades não geravam filhos da burguesia 'aptos', geravam burgueses homologados. A expansão recente das faculdades no Brasil veio para suprir a demanda de operários homologados. Não era, e não é agora, uma questão de demanda de indivíduos críticos ou 'na esfera intelectual'. A brutal competição pelo emprego formal promoveu a imensa corrida por um diploma. A competição pelo emprego achatou os salários de tal forma, que o desempate é o diploma. A explosão de faculdades é o revés dessa moeda.

Mas há algo oculto na frase "marmiteiros ... extranumerários" que ressoa na minha mente e, não tenho respostas claras - donde vêm todos os comentaristas do Reinaldo Azevedo? São pagos para isso? Esperam mostrar o quão bom são em detratar? Estão esperando um emprego?

20/3/09  
Anonymous Eduardo E S Prado disse...

Pelo menos em linguagem cartográfica (tentando relembrar minhas aulas de Cartografia na faculdade), polissêmicos seriam, por exemplo, símbolos sem significação nenhuma, aos quais poderiam ser atribuídos múltiplos significados, dependendo da escolha do autor, num mapa específico. Para que o símbolo seja compreendido corretamente é necessário que o leitor seja informado _ através de legenda ou outros recursos _ que objeto ou informação ele representa naquele mapa. Um quadrado preto dentro de um mapa do Brasil, por exemplo, pode representar qualquer coisa, minas de um determinado minério, cidades com mais de x habitantes, uma indústria específica, bolsões de riqueza ou pobreza, etc...

Neste sentido, polissimia social poderia ser as diferentes possibilidades de significações que um mesmo fato social _ movimento, grupo ou aspirações sociais _ pode receber de acordo com quem as analisa (Igreja, grupos ligados a setores de esquerda ou de direita, comunidades de bairro, políticos, operários, professores, sociólogos, economistas,...).

21/3/09  
Anonymous Paulo Cunha disse...

Olá Eduardo,

Interessante essa sua lembrança... é, também não vejo significação intríssica em símbolo nenhum... nem balançar a cabela pra cima e pra baixo significa necessariamente 'sim', nem mostrar o polegar pra cima significa 'ok'. Símbolos escritos (cartográficos entre eles) não têm nenhuma conexão intríssica com sentido. O desenho de uma árvore não é nem a árvore nem o sentido de árvore... Todo símbolo é sempre uma arbitrariedade que deve ser socialmente assimilada, ou não terá sentido na sociedade. Entretanto, cada símbolo busca unir-se a um sentido único, ele indica a exclusão dos outros sentidos. O valor dele é determinado pela negação de todos os outros. Ou você já viu um mapa com símbolos diferentes para a mesma coisa? Algo como: ^ = montalha, ¨ = montanha.

Então polissemina social continua a ser algo que me escapa...

22/3/09  
Anonymous Eduardo do E S Prado disse...

Olá, Paulo,

Num mesmo mapa, não! Com certeza! (risos...)

Não sei o que o professor da UFSCAR quiz dizer com o termo "polissemia" , mas ele me lembrou o significado que este termo na elaboração de cartas cartográficas. São códigos aos quais podem ser atribuidos múltiplos significados, por isso é preciso que o autor do mapa indique qual objeto tal código ou sinal, representa. Não me parece ser este o sentido que ele dá à esta palavra no texto.

Pelo que entendi, ele se refere ao fenômeno da mobilidade social, ou melhor, na resistencia dos grupos sociais que tradicionalmente já ocupam os lugares de maior destaque no campo cultural e intelectual do país, desde que o Brasil é Brasil, em aceitar a ascenção (social) de indivíduos com origens em outro estrato social. Barrados no baile, esses grupos passaram a criar mecanismos de valorização da sua origem que agregam capital a "cultura" que eles representam.

Eu não sou sociólogo e posso estar falando um montão de besteiras, mas de qualquer maneira o termo "polissemia social" não tem muito a ver com esse conceito cartográfico. Segundo este, polissemia social seriam as várias interpretações que um mesmo fato, como um acampamento do MST, por exemplo, podem receber de cada um dos grupos que formam a sociedade. Caso de polícia para uns, de injustiça socil para outros, reivindicação legítima, ação criminosa, desrespeito aos direitos da criança e adolescetes _ dos filhos dos acampados, por parte destes. Cada uma destas "visões" darão sentidos diferentes ao acampamento e darão origem à discursos diferentes que apontarão para soluções direntes para o mesmo caso.

Essa interpretação é só uma leitura minha, e só minha, do que está escrito acima.

Abraço!

22/3/09  

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