28 de mar de 2009

Sobre ‘Tropa de Elite’



Foi o Maurício começar a teclar e eu tirei minha metralhadora do armário.



Oi, Maurício

Adorei ler a sua análise. Mandou bem, véi (como dizem meus alunos mais jovens - ks ks)

Cinema Realista? Com certeza esse colunista não viu nem trailer de Cinema Realista. Deve ter ficado sabendo do fato de que houve um cinema realista pela exímia leitura da contra-capa de algum livro sobre o tema.

* * *
Agora, nem o cinema realista é chamado de ingênuo por um dos maiores estudiosos do tema, que é Sorlin, e de forma alguma o filme "tropa de Elite" pode ser chamado de ingênuo. Na minha opinião, a equipe que filmou, editou, escreveu o plot e dirigiu o filme é tudo menos ingênua. O Filme é assaz inteligente (para o mal). Não tive estômago para fazer uma análise mais densa das imagens, mas me lembro de algumas coisas que corroboram a minha afirmação:

1. O filme consegue despertar aquele espírito de classe média que quer poder andar pelas ruas e proceder com sua vidinha sem ser ameaçada pelo lumpen, mesmo que a paga disso seja a tortura do favelado pela polícia boazinha com saquinho de supermercado. (se aconteceu até comigo que sou classe média de esquerda, imaginem o que esse filme não desperta na classe média em geral. uma coisa que faço, a titulo de experimento, é me entregar ao filme sem críticas e sem reservas só para ver que sentimentos me desperta e o meu sentimento no fim do filme era totalmente a favor das torturas policiais. p.s: claro que essa não é minha posição de socióloga)

2. O filme constrói um grupo de personagens que se aproximariam de um estereótipo complexo que existe na nossa sociedade do defensor dos direitos humanos como "defensor dos direitos humanos do bandido" (creio que qualquer brasileiro já esteve exposto a este estereótipo). Para isso, ele constrói a imagem de um grupo de jovens que se drogam (e quando o filme bota a culpa pela existência do tráfico e toda a violência em torno dele nestes personagens, não está sendo nada ingênuo: está apontando o dedo para os defensores dos direitos humanos e dizendo ao expectador "é eles que você deve odiar. Eles são os culpados". É um j'accuse às avêssas.

Imagine só que a culpa por toda essa violência muito feia que te apavora, ó ser de classe média, é desses jovens irresponsáveis (também de classe média) que consomem drogas e são uns filhinhos de papai que não sabem de nada e que ficam por ai nas universidades, e por não terem o que fazer da vida ficam inventando essas conversas de direitos humanos. A mensagem pra classe média é mais ou menos essa "fique de olho no teu filho", além de "odeie esses jovens", sem contar com a mensagem "os defensores dos direitos humanos não passam de uns mauricinhos e patricinhas drogados". Ingênuo?

Vamos adentrar ainda mais esta ingenuidade e perguntar se a polícia - aquela que é construída como essa tropa de elite incorruptível - que aponta o dedo para esses personagens acima, além de apontar o dedo para o resto da polícia construída pelo filme como uma polícia totalmente corrupta (não estou negando que a polícia corrupta não exista e que ela não seja elemento importante nesse complexo, só quero chamar atenção para como essas imagens da polícia são construídas pelo filme). Lembremos da polícia federal, por exemplo, que até 2004 aparecia nos jornais fazendo grandes operações de combate ao narcotráfico, e que a partir de então começa a montar estas grandes operações contra a corrupção, como é o caso da satiagrarra e que está sendo alvo da mídia: ela não parou de combater o narcotráfico, que eu saiba - onde está esta polícia no filme? Não está? Que conveniente. Não creio que as pessoas que fizeram o filme são jovens o bastante para não saberem disso.

Agora vamos pensar de outra forma: as armas ilegais, bem como a grande quantidade de drogas que entram nos morros - vamos lembrar que lá nos morros não tem aeroporto, nem nenhuma conexão direta Farc-morro - queria perguntar isto: como é que tudo isso entra nos morros sem ninguém ficar sabendo? (o arsenal todo de armas e drogas é de toneladas, não dá pra esconder debaixo da jaqueta nem num fiat uno). Quem é que deixa entrar? O guardinha corrupto que recebe uns cem mangos no filme? O Estado? Desde 2002 há uma operação montada na cidade do Rio de Janeiro, chamada 'Pax Rio', que coloca inclusive um dirigível (isto não é roteiro de um sci-fi barato, se quiserem é só procurar pela operação “Olho no céu”) para patrulhar as favelas. ELES não sabem de nada? O sistema todo parece integrado a uma rede de computadores e captura de imagens.

Mas para além disto, junto às minhas, as palavras do professor Marcos Alvito " As favelas e áreas empobrecidas da nossa cidade serão submetidas a um duplo panoptismo. Vigiadas em terra pelos traficantes que impedem a livre movimentação dos moradores e controlam com mão de ferro as atividades comunitárias, destruindo o espaço de produção da cultura popular carioca, agora estarão também submetidas a um “Olho no céu”... Tais políticas, além de se constituírem numa perigosa escalada totalitária, reforçam a idéia de que o crime organizado esteja enraizado nas favelas, privilegiando a sua face mais visível e espetacular (as bocas de fumo e seus soldados pesadamente armados) e ocultando o crime enquanto um processo amplo que envolve redes mundiais de importação de drogas e armas, lavagem de dinheiro e corrupção em vários níveis (policiais, magistrados, políticos). Será o dirigível capaz de filmar a movimentação das contas numeradas ? Suas câmeras serão potentes o suficiente para registrar a desigualdade social, o desemprego e a falta de perspectivas que tornam os jovens moradores de favelas uma mão-de-obra descartável a ser empregada na ponta mais perigosa deste processo ? Os sensores instalados no ‘Pax Rio’ darão conta do processo de globalização que tudo transforma em mercadorias, dentre as quais a droga é a mais rentável ?” (texto completo aqui)

O filme Tropa de Elite" é muito astuto em construir estes dois culpados (os policiaizinhos que levam bola e os estudantinhos classe média que consomem e mantém o tráfico). Ele tira do foco os magistrados, políticos e coronéis de grande escalão que realmente estão levando um bolão e para quem essa aparência de que o ‘Pax Rio’ controla a favela é útil, ao tirar de foco eles mesmos.

3. A sociologia é atacada no filme, de forma lateral. Isso por que junta-se ao estereótipo do defensor dos direitos humanos, o estereótipo do que vem a ser o sociólogo. Segundo o estereótipo, o sociólogo seria um cara que fala muito, fala difícil, mas não sabe de nada. Para quem viu o filme, você deve se lembrar que os personagens estudantes são filmados na sua aula de “sociologia”, e no entanto, não são estudantes de um curso de sociologia – já não lembro, mas creio que são estudantes de direito (hum... direito... direitos humanos.... isso ainda não havia me ocorrido...). Os diálogos em que os personagens estudantes expõem a sua “sociologia” são pueris, quase infantis. Isso contribui para alavancar o estudante que é policial, membro da “tropa” a uma posição e fala que aparenta ser muito mais lúcida que as dos estudantes mauricinhos.

Por tudo isso, e se eu viesse a assistir o filme com a intenção de desmontá-lo, creio que poderia adicionar os elementos das imagens nesta análise (mas não creio ainda que tenho todo esse estômago), posso dizer que o filme é uma construção brilhantemente maquiavélica. Ele se utiliza de um dos saberes mais antigos da dominação. O saber que manda desde o Império Romano, dividir para dominar. No filme, todas as classes menores são divididas – os favelados, a polícia e a classe média – entre mocinhos e bandidos. É só botar uns contra os outros que eles esquecem que o problema tá nas classes acima de todos, o grande irmão que continua na invisibilidade segura.

5 Comentários:

Anonymous Paulo Cunha disse...

Sobre sentimento 'classe média', veja a construção dessa histórinha pela Adrina Carranca:
Testemunha de um assalto

28/3/09  
Blogger Hugo Albuquerque disse...

Flavia,

O termo Arte, no sentido pelo qual o tomamos hoje, é uma experiência estética cujo objetivo é introjetar uma ideia no observador mediante a geração de uma experiência sensível.

A Arte, portanto, contempla o aspecto intelectual e sensível. A Arte se aloja primeiro na memória afetiva para depois chegar à esfera consciente e pretensamente racional do nosso ser. A Arte, por conta do exposta, é uma maravilhosa arma política porque conquista decisivamente corações - conquistar mentes nem sempre levar a conquistar corações, a recíproca, no entanto, raramente é verdadeira na medida em que a humanidade é mais emocional do que racional e a essa conclusão os nazistas chegaram muito antes de mim.

Portanto, concordo em genêro, número e grau: Quem fez Tropa de Elite podia ser tudo, menos ingênuo. O modo como eles trabalharam com os estereótipos e os medos recorrentes na população brasileira foi perfeito. Arte em um grau bem elevado, bem acima do que vemos na média por essas terras, mas cuja ideia que busca passar é no minímo estranha à racionalidade.

Como deveríamos analisar Arte então? Pela qualidade da experiência estética e pelo êxito em transmitir as ideias que se presta ou pela nobreza dessas? Pelo primeiro critério temos um bom filme, pelo segundo temos um acinte à humanidade.

28/3/09  
Blogger Mauricio Caleiro disse...

De ingênuo, não tem nada mesmo, né? Aliás, eu não ia nem falar nisso, mas já que você tocou no assunto... nunca acreditei naquela história da pirataria criminosa do filme, que supostamente teria deixado os produtores e o Padilha fulos da vida [gostou de "fulos da vida"? é a típica "expressão idosa" que entrega a idade do comentarista]. Não posso afirmar nada, mas que achei MUITO ESTRANHO um filme brasileiro em relação ao qual não se alimentava nenhuma expectativa especial ter chegado com a antecedência desejada às mãos dos camelôs e se tornado um hit popular, cá entre nós, eu achei. Porque como jogada de marketing, foi perfeita (o que provaria, maisuma vez, a ausência de ingenuidade...

A propósito, adorei o "Mandou bem, véi" e o "abreijos" (que depois vi que não é criação sua). Aliás, abreijos procê!

29/3/09  
Anonymous Flavia disse...

Hugo,

Estou para postar uma resposta... na verdade, quando passei a fazer reflexões a respeito do que você disse (novidade) acabou ficando longo e vou acabar postando a resposta em breve (ainda não acabei de escrever)

abreijos

31/3/09  
Blogger flavia disse...

Maurício,

Acho que você deve ter razão, apesar de que não me aventuro a tecer elocubrações a respeito... mas o filme de fato chegou a jato aos camelôs.
Mas isso tudo pode ter a ver com a grande expectativa do brasileiro mais pobre com relação às produções do cinema nacional, não é (claro...)

Quanto à idade, eu só continuo por dentro das gírias da moçada por ser professora de alguns mocinhos... eu também já estou na versão mais updated de 3.4 (mas sempre acho que a minha versão é a melhor que há)

31/3/09  

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