6 de mar de 2009

O Manifesto Cristão de uma Comunista Atéia

Eu e meu irmão somos pessoas muito próximas, a ponto de um se preocupar muito mesmo pelo bem estar do outro. Quanto a mim, pode falar mal de Marx, de Weber, de Nietzsche, de Marcuse, de Foucault, da minha mãe, do meu pai... Mas o Paulo, meu marido, nunca chegou tão perto de apanhar quando disse que meu irmão fez algo muito idiota em certa feita em que ele de fato tinha feito algo bem imbecil.

No entanto, eu e meu irmão somos duas pessoas muito diferentes: ele sarado, eu gorda; ele popular, eu tímida; ele viajado, eu caseira; ele estuda educação física, eu sociologia; ele gosta de filme de ação e comédias estilo hollywood, eu de filmes feitos em outras plagas; e pra coroar, ele é católico e eu atéia.

Nunca abordei o tema com ele, a não ser quando tiro sarro daquele trequinho (cujo nome esqueço) que ele traz pendurado no pescoço, que tem uma reza dentro... tiro sarros homéricos até ele ficar vermelho e sem coragem de responder (pois capitulo em suas respostas)

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uma carta ao meu irmão, ou "o manifesto cristão de uma comunista atéia"


Oi, Rê!

Resolvi, como diligente irmãzinha que sou, te mandar umas coisas só pra... Bom, agente nunca discute sobre política, e eu estou aqui no meu sofá, com o espirro no colo (o "espirro" é o meu laptopinho: acer aspire one) me perguntando porquê.

Agente cresceu junto, num ambiente em que eu era chamada de "petista rôxa". Essas palavras tiveram, na época, o efeito de me fazer sentir reduzida a um lacre, uma fórmula, e de encerrar o assunto por ai. Acho que foi por isso que eu resolvi calar, já que argumentar dava muito trabalho. Não deveria ter feito isso, por que encerrei o diálogo com pessoas que são muito importantes para mim.



Não sou petista rôxa. Nem o PT é time de futebol, nem eu nunca fiz minha carteirinha - apesar de que muitos tentaram me alistar (nem é isso uma coisa má: eu sempre tentei manter um diálogo com qualquer tendência que não fosse babante). Não gosto de palavras de ordem, nem de fanatismos (veja, nunca fui torcedora de time - uma vez meus amigos me chamaram de spock por que eu disse que torcer por um time não tinha lógica: essa sou eu).


Mas me preocupo com a situação do mundo, e coisas como política, guerra, preconceito, são capazes de me mover, não só racional, como emocionalmente. Nunca fui avessa a certas tendências, que eu considero mais humanitárias, da igreja. Veja, por exemplo, a teologia da libertação, com nomes como Dom Hélder Câmara (4 vezes indicado para o Nobel da paz, perseguido pelos militares por sua atuação social e política, acusado de comunismo e proibido ao acesso dos meios de comunicação após a decretação do AI-5, sendo proibido inclusive qualquer referência a ele), e Dom Paulo Evaristo Arns (que durante a ditadura militar lutou pelo fim das torturas, e integrou o movimento "Tortura nunca mais"). Na minha opinião esses dois já deveriam ter sido santificados.



A(s) teologia(s) critã(s) não são de todo más, segundo o meu ponto de vista. Há coisas bonitas e há coisas brutas. Isto porque elas não são, nunca foram, um discurso único. Pelo contrário, o(s) discurso(s) da fé são apropriados, desde o início do catolicismo até os dias atuais, pelos mais diversos grupos de interesses e seus representantes. Veja o exemplo do nosso Papa, Bento XVI . Veja também isto, mesmo que seja uma passada de olhos para ver do que se trata, e mais este site, e também o parágrafo “Rottweiller de Deus” neste blog do PSTU, que não é nenhum exagero de radicais de esquerda, mas apenas um sumário bem sumarizado do que todo mundo já sabe.



Por que tudo isso? Eu por acaso gostaria que você deixasse de ter fé? Sinceramente não. Mas fico me perguntando, entre outras coisas, porque tantos cristões não estão atentos a tantos outros Jesus-Cristos modernos, do mundo de hoje. Aqui no Brasil, veja o exemplo da freira Dorothy (acabou de sair um documentário a respeito, veja o trailer) e esta mulher, no maior presídio a céu aberto do mundo (a faixa de Gaza), e pra acompanhar, o vídeo dos Shministims - secundaristas judeus que se opõe à invasão e estão presos por recusarem a se alistar no exército.





Para retornar à fé cristã, será que não há nada que se salva? Não concordo. A Teologia da Libertação é um entre muitos exemplos na nossa história, e dependendo do ângulo pelo qual se olha pode ser uma fé bonita.

Esta música do U2 eu interpretava e cantava com meus alunos em capela, por ser um gospel - claro, depois de dizer que sou atéia e que não estava querendo catequizar ninguém – e sempre saia bonito. Eu sempre tive que segurar meu choro (sou uma chorona de marca maior) quando depois de irmos chegando à conclusão que o Bono não estava a procura de um romance, no parágrafo em que ele diz "I believe in the Kingdom Come when all the colors will bleed into one” por que pra mim isso representa muita coisa: todo comunista ocidental é, no fundo, um cristão que acredita na necessidade da vinda do reino ao mundo, na transformação deste mundo cão num lugar divino, em que todas as diferenças fluirão juntas harmoniosamente, em que não terá lugar a injustiça com minorias sem voz ou com maiorias desprivilegiadas. A diferença do comunista - seja ele ateu ou cristão - é que resolvemos cobrar que isso ocorra aqui e agora e acreditamos que isto deva ser conquista do ser humano, não dádiva divina. Seja para a glória de deus ou do ser humano.

Bom, por enquanto é só. Mas o que é que eu quero com isso tudo? Sei lá: iniciar contato no estilo Star trek, ou de "ET phone home" beijos da irmãzinha.

2 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Agente? Agente secreto?

Não, não, só agente analfabeto.

9/3/09  
Anonymous Flavia disse...

tem razão, que mico!

9/3/09  

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