1 de mar de 2009

resposta a questões muito pertinentes de Leonardo Bernardes, ou, (título opcional) porque eu não vou catar coquinho?

Após muito tempo de abandono deste blog, resolvi postar uma resposta de um fantástico bate bola que me retirou da torpidez conceitual com o Leonardo, no seu blog Reinventando Santa Maria, que eu acho genial e se algum ser humano alguma vez ler este blog eu diria que o dele contém discussões mais relevantes para serem lidas, ou, dito de outra forma, sou fã dele e vale a pena conferir.

Para qualquer ser humano ou alienígena que (apesar de improvável) queira saber onde esta discussão começou, foi aqui, e continuou neste sítio, onde eu fiquei postando comentários longos demais antes de resolver que o meu comentário era longo demais para postar como comentário no Reinventando...

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Leo, vou fazer mais algumas perambulações, pois acho que apesar de achar que de um modo geral concordo contigo, creio que nessas questões gerais há pontos específicos que eu gostaria de mergulhar mais a fundo.


Então não ligue se não achei outro tom, que não fosse muito professoral para dizer com toda a certeza tudo aquilo que eu não tenho certeza nenhuma. Começo assim:


Pegando o gancho que você me deu sobre o cristianismo, em seguida vou a Nietsche e só depois a questão sobre homens e mulheres.

O cristianismo surge, como muitas das religiões chamadas por Weber de mundiais, como um desenvolvimento específico e em contraposição àquilo que ele chama de religiões comunitárias. O que se quer dizer com isso: diferentemente do cristianismo, onde o sofrimento do indivíduo toma o primeiro relevo, as religiões comunitárias se voltavam para o sucesso das comunidades. Aqueles homens tinham certeza de que a sua bonança - vitória nas guerras, boas colheitas, melhoramento do controle técnico sobre a natureza, boa manutenção da sua população através da boa saúde e dos nascimentos - tinha a ver com o fato de que os deuses foram agradados. Note-se que estes deuses não respondiam individualmente a um desagrado, mesmo que o desagrado tivesse sido praticado por apenas um indivíduo: a comunidade inteira era castigada pela falta (ou, pelo menos, era assim que eles interpretavam). O Édipo histórico (o rei de Tebas) pode ter existido (ou não exatamente da maneira retratada por Sófocles, pois mitos são muitas vezes formados pela aglomeração de muitas histórias de épocas diversas e possivelmente até por fatos historicamente inventados) mas serve aqui de exemplo desse “fato” religioso de uma religião comunitária: a falta de um indivíduo – e talvez mais sério que isso, no caso, pois Édipo era o líder da comunidade – trouxe a ira dos deuses para a comunidade

Na abertura da peça, fala do Sacerdote a Édipo: “Édipo, tu que reinas em minha pátria, bem vês esta multidão prosternada diante dos altares de teu palácio; aqui há gente de toda a condição (...) Tu bem vês que Tebas se debate numa crise de calamidades, e que nem sequer pode erguer a cabeça do abismo de sangue em que se submergiu; ela perece nos germens fecundos da terra, nos rebanhos que definham nos pastos, nos insucessos das mulheres cujos filhos não sobrevivem ao parto. Brandindo seu archote, o deus maléfico da peste devasta a cidade e dizima a raça de Cadmo”

O Levítico, 3o livro da Bíblia, é um exemplo do que era o deus do antigo testamento. Sugiro ler: nenhum cristão moderno (mesmo que como eu, convertido ao ateísmo) se reconheceria nele: trata-se de um compêndio de rituais sagrados a respeito de holocaustos que devem ser oferecidos ao deus.

“Quando algum de vós trouxer oferta ao SENHOR, trareis a vossa oferta de gado, de rebanho ou de gado miúdo. Se a sua oferta for holocausto de gado, trará macho sem defeito; à porta da tenda da congregação o trará, para que o homem seja aceito perante o SENHOR. E porá a mão sobre a cabeça do holocausto...” etc


No Levítico não se dá a conhecer qual seria a paga da ira divina: não se diz "façam isto, senão..." mas como é sabido, o deus é onipotente, ou seja, a ira divina pode representar a aniquilação total, com recursos de sadismo divino (pois o deus do velho testamento não é o bom deus do novo: é um legislador todo poderoso, deus dos deveres). Pela leitura dos ritos você perceberá que – para o bem da comunidade – a expiação dos pecados (todos aqueles que o cristão moderno consideraria íntimos, a ser expiados pela confissão e reza, em que os envolvidos - pecador e padre que ouve a confissão - mantém sigilo) envolve ritos públicos, envolve toda a comunidade. E imagino que mesmo que não fosse dito exatamente a história do pecado, todos teriam certeza a respeito de que espécie de falhas foram cometidas, tal a ritualização necessária a cada categoria de falhas e o sacrifício exigido, segundo as próprias falhas e posição social do faltante (as possibilidades –econômicas - que este tem de ofertar). Mas não é só isso: não só a expiação dos pecados deve ser pública, mas também o fato do deus castigador ser onisciente leva a imaginar uma comunidade inteira de policiais do pecado, já que: 1. ele não tem como ser escondido de deus e 2. a ira divina atinge a comunidade inteira (é por isso mesmo que os holocaustos são públicos: por que os pecados de um são, por assim dizer, os pecados de todos).

Pra que tudo isso? Isso tudo para começar a introduzir a noção de que a mudança de valores envolve não só a simples mudança de ponto de vista, da maneira como se vê o mundo - não que essas escolhas não sejam feitas pelos indivíduos num longo processo histórico em que não só as idéias mais doidas dos profetas mais matusquelas são apropriadas, reapropriadas, reinterpretadas segundo os mais diversos interesses, que tem a ver com a posição social dos envolvidos. Estas doutrinas vão sendo adaptadas e moldados a necessidades de uma comunidade de seguidores e a história dos inúmeros profetas que nem ao menos atingiram este status social, por terem sido considerados apenas como doidos, e daqueles que conseguiram por pouco tempo arrebanhar um pequeno séquito de seguidores que desapareceu na história por não ter tido continuidade, ou por ter tido uma continuidade perene e que então são chamados de seitas, por não terem tido um alcance maior ou por terem sido espicaçados pela religião dominante, é a história dos inúmeros insucessos das mais diversas seitas que surgiram na longa história da humanidade.

A mudança de valores não pode ser separada, como se fosse um fenômeno totalmente desconectado, da história dos desenvolvimentos materiais da sociedade e a separação entre material e ideal não tem sentido, sob este ponto de vista: é a sociedade que muda em todos os seus aspectos ditos materiais – suas técnicas de dominação da natureza, de dominação do homem pelo homem, de distribuição de poder e recursos, de organização da vida, e portanto das regras do que é lícito e o que é tabu – é essa sociedade que passa por imensamente longas transformações “materiais”, que também passa por transformações “espirituais”. Uma não pode ser desconectada da outra, assim como também, uma não é simples reflexo da outra: ou seja, não é porque houve uma mudança nas estruturas de poder, por exemplo, que a "ideologia" que põe ordem na cabeça dos indivíduos vai mudar automaticamente, como reflexo puro e simples das ditas mudanças materiais. Assim também não é com as mudanças valorativas: os sujeitos históricos não simplesmente concordam do nada em ver as coisas sob um ponto de vista diverso e a partir daí realizam mudanças na sociedade. É preciso ver que “sociedades” são formadas das mais diversas camadas com diversos interesses.

A forma como uma religião, por exemplo, vai tomando sucesso, envolve toda a sorte de trocas e adaptações às diversas camadas de uma sociedade. Uma religião, para ter sucesso, deve se tornar universal. E para que isto ocorra, ela deve ser reformulada pelas diversas classes e-ou estamentos daquela sociedade, perdendo certas características que se deviam ao seu surgimento originário de uma determinada classe, estamento, ou em casos mais antigos, uma comunidade (como a de Moisés ou de Tebas) e ao ser reformulada para ser adaptável a todos estes interesses, vai se tornando menos e menos específica, ou mais e mais abstrata. Por isso mesmo nos é tão alienígena toda a especificidade dos ritos do Levítico, por exemplo.


Retornando à religião comunitária, ela atendia a uma necessidade social, ajudando a manter a ordem de uma comunidade pequena, Era a religião que se voltava para o sucesso desta comunidade e não para a redenção do indivíduo. Quando o mal atacava uma comunidade, todos tinham a certeza de que algum desagrado aos deuses ocorreu (e mesmo que nenhuma falta tenha de fato ocorrido, ela deverá ser inventada, por meio do uso de oráculos, ou o que o valha, para que seja expiada e para que assim a comunidade, que provavelmente foi atingida por más condições do clima ou pelo alastramento de uma doença, mas que não tem os meios de controlar tais males, possa colocar seus esforços em alguma empreitada que, eles acreditam, vá dar fim á suas misérias (1). Como o mal do clima ou das doenças pode passar por si só, e como a atitude religiosa foi tomada, esta pode muito bem ser interpretada como o agente salvador da comunidade (2). É por isso que eu digo acima que nos mitos, alguns fatos são provavelmente “historicamente inventados” – eles são inventados, mas se tornam os fatos, para aqueles que os inventam, segundo as suas regras sociais de verdade, sejam oráculos, revelações ou outros, pois desta forma as pessoas são capazes de passar das idéias à ação e a ação não contém apenas um componente ideal, mas é material)

Concordo que de uma maneira mais ampla pode-se analisar o movimento entre mudanças materiais e mudanças nas idéias como movimentos separados, como dois momentos. As figuras que nos surgem desse tipo de análise não são enganosas, pelo contrário, podem ser bastante elucidativas. Mas estou a falar de um complexo que envolve ação e visão de mundo na escala da vida cotidiana de sujeitos históricos num longo processo, em que não é possível des-entremeá-las em primeiro momento: material, segundo momento: ideal, nem ao contrário (primeiro momento: ideal, segundo momento: material)

De volta à religião da comunidade, ela é a religião do sucesso, não da redenção. Para trazer um exemplo mais próximo: caso esta comunidade faça parte de uma sociedade mais complexa como a nossa, ela se comporta como seita, ou seja, a medida em que não pode renegar a sociedade por não ter universalizado suas doutrinas, comporta-se, para fora da seita, como se não estivesse em confronto, mas para dentro da seita, renegando e reavaliando as ocorrências externas segundo os seus próprios dogmas. Na minha história de vida pude observar isto com relação a algumas comunidades que eu voluntariamente observei (cristões da USP, por pura curiosidade) ou completamente inversa à minha vontade (rosacruz - pelo meu pai – e pró-vida – por uma tia minha). Vamos pegar a pró-vida, por exemplo, por ser o que se encontra mais vívido na minha memória. Nas diversas ocasiões em que eu e meu marido ouvimos as histórias daquela tia na sua comunidade, nunca pudemos deixar de notar, com um certo incômodo de nossa parte, que idealmente, para eles, o sucesso econômico individual e da comunidade se deve à sua força de vontade. O incômodo se dá à medida que podemos entender que para aquela comunidade só não tem sucesso quem não quer – claro que isso é convertido numa mítica de matriz de pensamento, ou o que o valha. E é algo bem diverso dos ensinamentos de Mateus: “Bem-aventurados os humildes de espírito, porque deles é o reino dos céus.
Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados.
Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão fartos.” etc

É possível imaginar que nessa comunidade, alcança grande prestígio aquele que tem sucesso material, pois seguramente deve ser alguém que realmente absorveu e pôs em prática com a mais pura fé, os ensinamentos da seita. Por outro lado, é possível imaginar que o coitado que, apesar de tentar com todas as forças, não tenha sucesso material, seja visto como algo como alguém que não tem verdadeira fé – ou que não absorveu e pôs em prática os ensinamentos. Este vai, com a ajuda do tempo, se frustrar não só com seu insucesso, como também com a imagem que a comunidade faz dele e se afastará/será afastado. Já nas comunidades primitivas, que não contavam com todos os meios de domesticação da natureza, nem de trocas econômicas, que temos, e para os quais a ira divina poderia ser despertada pelo mínimo desagrado, os desafortunados não só são aqueles que, como acima, recebem o que decerto fizeram por merecer, como também devem ser mais ativamente afastados, pois eles irritam os deuses, despertam sua ira, e a conivência da comunidade para com eles pode despertar a ira de deus para com toda a comunidade. Uma passagem do Levítico só para ilustrar: " Se uma pessoa tocar alguma coisa imunda, como imundície de homem, ou de gado imundo, ou de qualquer réptil imundo e da carne do sacrifício pacífico, que é do SENHOR, ela comer, será eliminada do seu povo.”

Ou seja, o sofredor é alguém que deve ser afastado, pois traz imundície e ira divina à comunidade. A forma como essa avaliação negativa de sofrimento se transformou na sua glorificação é complexa e envolve um longo desenvolvimento. Envolve o desenvolvimento de prescrições ritualísticas de purificação, das quais se passa do isolamento final para o isolamento temporário e ritualístico daquele que cometeu a falta. Representa um passo no sentido da “inclusão social” do faltante ao transformar a exclusão total em exclusão temporária, que, segundo Weber, se dá por meio de um terceiro agente nessa equação: a sociedade e o seu sacerdote são os dois primeiros – eles se ocupam com a manutenção daquela sociedade, com o culto que se volta para a apologia das suas associações políticas, e deixa de fora as preocupações com o indivíduo, preocupações que se tornam prementes para este, o distinguem e separam da comunidade, na hora do seu sofrimento (3). O terceiro agente desta equação é o feiticeiro (que, segundo o estágio de desenvolvimento da sociedade, pode ser chamado profeta e líder carismático). "O indivíduo, a fim de evitar, ou eliminar, os males relacionados com ele - acima de tudo enfermidade - não se voltou para o culto da comunidade, mas como indivíduo, procurou o feiticeiro... O prestígio dos mágicos particulares, e dos espíritos ou divindades em cujos nomes eles realizavam seus milagres, angariou-lhes proteção, a despeito de sua filiação local ou tribal. Em condições favoráveis isso levou à formação de uma ‘comunidade’ religiosa, que foi independente de associações étnicas" (4). Em outras palavras, as novas seitas formavam comunidades relativamente independentes das associações políticas prévias: se sob controle, funcionavam como um tampão para o descontrole individual dentro de suas associações políticas, mas caso se fortalecessem, traziam consigo o perigo de serem antagônicas ao status quo. O desenvolvimento subseqüente dessas sociedades se dava nesse equilíbrio em que ou as seitas se mantinham como tais – isoladas, mas em relativa harmonia com a ordem vigente, ou elas cresciam, e daí guerras e aniquilação ou a formação de novas dinastias de mistagogos.

O que teria ocorrido com o cristianismo? A região da Judéia era de domínio Romano naquele sistema que os romanos faziam melhor. Era mais ou menos assim: O estado muito mais organizado de Roma, com exércitos e burocracia chegava a uma região, normalmente dividida por não se configurar como estado, mas como um conjunto de tribos de origem comum em um equilíbrio instável entre alianças e desavenças, fazia alianças com uns, e suportava suas guerras com outros, até que se atingia a pax romana, que em outras palavras significava que as tribos que venciam tinham as benesses de fazer parte do estado romano, acho que como uma espécie de protetorado, tinham o seu domínio político na região assegurado (e ganhavam uma cota confortável das taxas) e em troca pagavam impostos a Roma e aceitavam algumas interferências em questões locais. Na época em que supostamente houve um Jesus parece que essa pax estava em perigos de ir para o escambau: parece que com fariseus, de um lado, organizando revoltas contra Roma, e os essênios, que pregavam a vinda de um messias que os liberaria do julgo romano, e o império romano, com seus local-tenentes composta por uma aristocracia local e sacerdotes judeus no comando, a coisa não ia assim tão bem, mas não quer dizer que ia de todo mau. Sabemos, pela Bíblia, que de início os cristãos eram uma seita que seguia um líder feiticeiro que realizava milagres em nome de uma divindade. Esse foi morto. O movimento, por meio dos apóstolos que sobraram, seguiu secreto o quanto podia, quando não eram de vez em quando alimentados aos leões. É impossível saber quando esta seita deixa de ter como mote a libertação de um povo para ter como mote a conquista – esta por meio da “conquista das almas” e da universalização do tal do deus, que deixa de ser o deus de um povo para ser proclamado o deus verdadeiro da humanidade, assim como quando de fato o feiticeiro passa a ser entendido como aquilo que os indús chamam de avatar: a encarnação do deus, pelo tal do "mistério da santíssima trindade". É possível imaginar que apenas depois da morte do messias-feiticeiro foi possível a passagem da magia – o milagre – e, portanto, a resolução dos problemas neste mundo mesmo para a garantia da resolução dos mesmos problemas em outro mundo. De qualquer forma sabemos que a Bíblia foi escrita e muitas vezes reinterpretada muito posteriormente aos fatos que supostamente originaram o mito.

De qualquer modo é possível entender que um povo sob jugo político continha indivíduos que se viravam até que muito bem dentro das circunstâncias, ou que mesmo tiravam bons proveitos próprios, outros que se viravam mais ou menos, dentro do possível, e que numa boa parcela era, segundo seus interesses, conivente (como todos aqueles que em um cálculo racional estão em situação de sobreviver bem dentro de seus parâmetros e que apesar de achar o mundo injusto, não acreditam que fazer a revolução seja mais confortável que ir levando), podendo haver variações nesse gênero (aqueles que não fazem nada contra a situação, mas falam mal pelos cantos, ajudando a incitar a revolta de alguns mais exasperados, e mesmo aqueles que passam pela conversão dos santos, largando seus interesses materiais em nome dos interesses de outros e se identificando com eles). Imagino também que houvesse, por seguro, uma razoável parte desta população que sofria com a extorsão de impostos, com a falta de liberdade, com o conhecimento da dominação do seu povo por outro, com a prisão e possível crucificação de outros seres humanos com os quais ele se identificava por serem de sua família, ou amigos, ou vizinhos, ou simplesmente por ser alguém que elem viam como um igual, da mesma religião, da mesma cultura, da mesma etnia... tudo depende da sensibilidade e dos valores daquele que se identifica. Mesmo com todas as diferenças que possam haver entre indivíduos é possível imaginar que uma parcela deles transformava a sua brabeza em revolta – em ação, desencorajando uns e motivando outros com seus resultados.

Mesmo do ponto de vista de valores que motivam as ações de revolta, eles não são puramente “ideais”, mas podem em parte ser entendidos como um cálculo parcialmente racional com base em interesses materiais. Digo parcialmente por que a identificação com o outro não pode ser chamada de puramente racional, como pode-se dizer que vaquinhas sejam de todo irracionais quando apesar de verem seus iguais serem mortos não organizam a grande revolta das vaquinhas. Estariam de certa forma corretas, no que diz respeito à lógica, se assumissem que a vaquinha que está sendo morta é uma vaquinha diferente delas mesmas. Aquela não sou eu. Mas também seriam racionais se fossem capazes de deduzir que o intento daquele estabelecimento que mata aquela outra vaquinha é de, num dado momento, matá-la também. Apesar de que isso não vai acontecer com todas as vaquinhas, aquelas que produzem bem bezerros e leite, e isso é um cisco no meu argumento. Pois bem, mas os judeus também nem estavam exatamente na posição que estão as vaquinhas: o intento daquele sistema de poder não é de matá-los a todos (5) mas, primariamente, extorquir uns mais que outros. Mas apesar da identificação com o outro não ser de todo racional, o cálculo que se segue pode ser entendido como sendo: se o outro é um possível eu amanhã é de meu interesse material (seja sobreviver ou viver melhor) lutar contra esta dominação que nos extorque e em alguns casos mata. Os valores que acompanham este raciocínio na sua forma mais lírica não são pura e simplesmente o reflexo das condições materiais, mas também não são puros inventos ideais de um momento de inspiração (pois são normalmente valores presentes no ideário de uma dada cultura que são destacados, tomam maior importância e novas cores) e mais que isso, não são tampouco ideais sem fundamentos materiais, pois a escolha de troná-las ação não se dá só com base em ideais etéreos, mas também tendo por fundo um contexto em que os interesses materiais do agente são vistos por este como estando em perigo. E para a conta da escolha entre ação ou conivência, em geral eles estão.

Nietsche não deixa de ter sido um ser humano impressionante e revelador – quase um profeta às avessas – quando nota o componente psicológico do ressentimento de um povo escravizado escondido sob as diversas camadas de reinterpretação da história da moral cristã. O safado do Weber também deve ter notado isto, pois não só era leitor, como utilizou os ensinamentos do mestre. Mas como todo discípulo (ao menos se espera) deve ir além, creio que ele se esmerou bastante no aspecto de analisar os mecanismos sociais pelos quais essas idéias são formadas e se desenvolvem noutras parecidas, dentro de uma longa história de conflitos e afinidades entre estas idéias, outras idéias, e interesses materiais que se ligam e desligam delas no andamento do processo histórico.

Através da transformação que fez a cristandade se tornasse de seguidores de um feiticeiro-lider carismático a agentes éticos de uma doutrina de vida, a cristandade também passou de seguidora de um líder que fazia milagres, e portanto transformava a vida neste mundo à sua impotência ressentida da promessa de um outro mundo às avessas, onde os poderosos seriam os sofredores e os sofredores deste mundo seriam compensados. Não é possível dizer que isso não seja de certa forma um retorno a uma moral formada anteriormente à vinda de um messias, mas a vinda do messias deu novas cores, seguramente, a essa moral – mesmo que o messias, caso ele tenha sido de carne e osso, tivesse em mente não nos aspectos que de fato vingaram na história dessa moral, mas outros: Dostoievski talvez tenha sido o primeiro a elaborar esta hipótese. Em capítulo chamado “o Grande Inquisidor” dos irmãos Karamazovi Jesus desce dos céus, é reconhecido e faz milagres. Uma multidão o acompanha. Abaixo, uma passagem, só por que é bonito.

“Naquele momento passa pela praça o cardeal, grande inquisidor. É um ancião quase nonagenário, de elevada estatura, de rosto dessecado, olhos cavados, mas onde luz ainda uma centelha. Não traz mais a pomposa veste com a qual se pavoneava ontem diante do povo, enquanto eram queimados os inimigos da Igreja Romana. Retomara sua velha batina grosseira. Seus sombrios auxiliares e a guarda do Santo Ofício seguem-no a uma distância respeitosa. Detém-se diante da multidão e observa de longe. Viu tudo, o caixão depositado diante dele, a ressurreição da menininha, e seu rosto ensombreceu-se. Franze suas espessas sobrancelhas e seus olhos brilham com um clarão sinistro. Aponta-o com o dedo e ordena aos guardas que o prendam. Tão grande é o seu poder e o povo está de tal maneira habituado a submeter-se, a obedecer-lhe tremendo, que a multidão se afasta imediatamente diante dos esbirros; em meio dum silêncio de morte, estes o pegam e levam-no. Como um só homem, aquele povo se inclina até o chão diante do velho inquisidor, que o abençoa sem dizer palavra e prossegue seu caminho. O prisioneiro é conduzido ao sombrio e velho edifício do Santo Ofício, onde o encerram numa estreita cela abobadada. O dia chega ao fim, vem a noite, uma noite de Sevilha, quente e sufocante. O ar está embalsamado do perfume de loureiros e limoeiros. Nas trevas, a porta de ferro da masmorra abre-se de repente e o grande inquisidor aparece, com um facho na mão. Está só, a porta torna a fechar-se atrás dele. Pára no limiar e observa longamente a Santa Face. Por fim, aproxima-se, pousa o facho sobre a mesa e diz-lhe: — És tu, és tu? — Não recebendo resposta, acrescenta rapidamente: — Não digas nada, cala-te. Aliás, que poderias dizer? Sei demais. Não tens o direito de acrescentar uma palavra mais do que já disseste outrora. Por que vieste estorvar-nos? Porque tu nos estorvas, bem o sabes. Mas sabes o que acontecerá amanhã? Ignoro quem tu és e não quero sabê-lo: tu ou apenas tua aparência; mas amanhã eu te condenarei e serás queimado como o pior dos heréticos, e esse mesmo povo que hoje te beijava os pés precipitar-se-á amanhã, a um sinal meu, para alimentar tua fogueira. Sabes disso? Talvez — acrescenta o velho, pensativo, com os olhos sempre fixos em seu prisioneiro.”


Voltando ao gostoso do Nietsche: não se pode confundir o que ele faz com primor – uma genealogia, um método de análise que busca descobrir nas idéias presentes sua filiação a idéias anteriores, e no caso de Nietsche, sua filiação a sentimentos de ressentimento de um povo escravo - nem com um estudo histórico nem com uma análise de componentes sociológicos destes desenvolvimentos. A análise de Nietsche contém um componente sociológico histórico – na figura da posição social dos desenvolvedores da moral cristã – que não é decomposto sociologicamente. Isto significaria analisá-lo como um grupo social de interesses específicos que ao mesmo tempo em que é herdeiro de valores de um povo, o judeu (que não é uma mônada, homogênea), também se coloca em conflito com outros grupos componentes desse povo. Por isso a generalização na idéia de um povo escravizado. Mas este componente não é também analisado historicamente nos desenvolvimentos do crescimento dessa seita, das alianças que consegue fazer com os poderosos e das características que ganha e aquelas às quais abdica ao longo dessa história.

Não quero dizer com isso que a análise seja infundada, mas só que é limitada a partir das características do que ela se propõe desde seu início: se ele se propõe analisar a geneologia das idéias, a análise se limitará às idéias. A análise não deixa de ser poderosa, mas deixa a impressão de que tudo se dá no campo das idéias, pois é tão fascinante a análise que ele faz das mesmas.

Seria sociologicamente risível hoje propor uma análise que dividisse o mundo nos atores sociais “fortes” e “fracos”, mas do ponto de vista de um método de genealogia de idéias e, principalmente, do ponto de vista do contexto histórico ao qual pertenceu Nietsche – principalmente no tocante ao state of art das humanidades daquela época – não é de maneira alguma risível. Foi genial. Veja, Nietsch foi um dos primeiros seres humanos na face da terra a propor que se fizesse um exame mais pé no chão dos valores. Ele é o iniciador de uma longa linha de pensadores. A ele posso afiliar não só Weber como os Frankfurtianos, que são meus heróis. Tenho orgasmos mentais quando leio Nietsche.

Mas, pessoalmente, não posso, por outro lado me conformar com a idéia de fortes e fracos – e simplesmente me contentar de que ela seja explicativa do mundo e de seu estado atual, ou seja, de que os impotentes e despossuídos são os fracos e simples assim está tudo resolvido. Eles, por outro ponto de vista são de fato os fracos – ou melhor, o somos todos, pois a não ser que sejamos aquele um por cento das pessoas no mundo que não têm do que reclamar, somos todos os herdeiros em maior ou menor grau de um longo processo de derrotas e extorção: somos os ressentidos contra a injustiça dos fortes, dos que podem utilizar os mecanismos de poder da forma como lhes convém e que ainda levam essa mentira na cara de que a justiça seja igual para todos. Eu, por exemplo, me regozijaria em ver certos figurões afundarem na lama, Apesar de saber que isso não seria capaz de desfazer todas as injustiças que eles cometeram.

Mas maldades a parte, também não posso deixar de notar a filiação darwinista desta idéia (mesmo que o próprio Darwin não tenha culpa – ele próprio foi muito mais cristão na sua observação de que não se pode esperar, ao perguntar ao escravo o que ele acha de seu senhor quando se tem por perto o capitão-de-mato, que ele diga a verdade... algo assim, acho que li isso na sua auto-biografia). Para o bem e para o mal, Darwin foi inspirador de muitas idéias. Eu mesma acho o creacionismo uma noção ridícula e infundada. Bom, também pudera - sou atéia...

Concordo com você que o materialismo não se opõe ao subjetivismo, nem o anula. E Marcuse é, como você disse, de fato, um bom expositor para nos ajudar a pensar nesse sentido.

Só pra encerrar, quanto à questão anterior sobre diferenças entre homens e mulheres, é preciso verificar, eu creio, que cada um de nós é um poço de experiências sociais, mas que é limitada a sociologia que se baseie nas experiências de um só indivíduo (6), apesar de que válida. Mas mesmo a sociologia mais limitada pelo número de pessoas analisadas pode se beneficiar da análise da posição social daquele(s) sujeito(s) analisados. Por isso a minha resposta à pergunta de se homens e mulheres se portam igualmente é que não. Todos nós por sermos compulsoriamente definidos para nós mesmos e por todo o resto do mundo (espero que um dia tenhamos mais liberdade quanto a isto) como pertencentes a um ou a outro daqueles dois partidos, por razão de uma matriz cultural que nos antecede em milênios, temos que aprender a lidar com outros seres humanos através deste filtro cultural (assim como de muitos outros filtros). Não que eu esteja negando que haja uma diferença física e fisiológica entre homens e mulheres, mas dependendo do ponto de vista do qual se olha, quando se abandona as generalizações simplistas, podemos ver que as diferenças nem se somam num todo coerente, nem a média condiz com a realidade dos indivíduos. Pode-se dizer, por exemplo, que em média os homens são mais fortes em sua musculatura; mas não haverá mulheres dentre as que praticam alterofilismo, das que participam dos jogos olímpicos que estão muito acima no quesito força muscular que uma boa parcela dos homens que não são alterofilistas nem atletas? Muitos dizem então que as mulheres atingem marcas sempre menores que os homens em suas competições. Nem sei se isso é fato, mas mesmo que fosse, não é verdade que recordes estão sempre sendo quebrados? Isso quer dizer que a margem que alcançam as marcas dessas competições está sempre sendo posta mais pra diante tanto para homens quanto para mulheres, então eu pergunto: se pudermos imaginar que um homem tenha numa dada competição dos jogos olímpicos mais recentes uma marca que vamos chamar de "x" e para as mulheres a marca foi algo que chamaremos "x - 1", qual a diferença em termos de natureza entre esta mulher e outro homem que anos atrás atingiu a mesma marca “x – 1” que foi suplantada pelo novo recorde masculino mais recente? Isso seria de fato uma diferença constitutiva da natureza de homens que é diferente da natureza de mulheres, ou seria um atraso cultural ou histórico das mulheres. Para um homem atingir a marca "x" foi necessário toda a história das olimpíadas até que o fato ocorresse, ou é um fato natural?

Sei lá. Creio que muitas outras linhas de argumentação podem ser levantadas para a solução deste mistério. Eu, pessoalmente, já fiz muitas coisas que eu ouço outras mulheres dizerem que seria preciso um homem pra fazer. Quando ouço a frase “mas precisava um homem...” relativo a furar uma parede, colocar uma cortina... juro, sinto vergonha. Não estou a dizer que sou toda poderosa mulher biônica, senhora da tempestade, muito pelo contrário: boa parte das “proezas” que realizei fisicamente, como colocar prateleira na parede, desmontar, lixar, pintar e remontar uma estante de livros, mexer com cimento e depois com rejunte para instalar rodapé de pedras mineiras, levantar a minha Yamarra 225 depois de ter sofrido queda, empurrar a minha scooter mais antiga com o pneu totalmente murcho de um extremo ao outro da cidade universitária e desse extremo, que era a saída, até o borracheiro entre outras coisas... estas “proezas” não foram tanto questão de força, mas também de jeito e teimosia. Pode ser que alguém mais forte do que eu, que mal condicionada fisicamente e que não fume como eu, tenha mais facilidade de realizar estas tarefas, mas isso não me impediu de fazê-las. E frequentemente vejo que os homens que realizam estas tarefas pela primeira vez enfrentam os mesmos problemas que eu enfreitei. Então, se mulheres dizem que “precisava de um homem”, será por que eu sou diferente delas – sou super-mulher – ou será que a diferença está na atitude? É preciso notar que esta atitude tem seus benefícios (apesar de eu achar que são só imaginários e nada como o benefício psicológico de se considerar capaz) de que outros seres humanos, que compartilham da mesma visão de mundo acerca dessas diferenças entre sexos, mas da categoria do sexo feminino masculino, agirão paternalmente para com você. A diferença natural, mesmo que existente, não é impeditiva, mas os comportamentos condicionados culturalmente e as psicologias em que isto implica são. As mulheres que repetem aquele mote “precisa de um homem” não o fazem por pura preguiça somente, mas elas não acreditam que elas mesmas possam fazê-lo mesmo que tenham mais dificuldades em média com a média que elas imaginam do homem. Não será possível que entre homens, um chamado Gustavo, outro chamado Pedro e outro chamado Hugo tenham maiores dificuldades em realizar uma ou outra destas tarefas do que Rodolfo? Então, tendo concluído que não podem ou não querem pagar para que o serviço seja feito, eles todos vão concordar que é melhor chamar o Rodolfo, ou vão fazer o serviço mesmo que não tenham a destreza do tal Rodolfo? E ademais, mesmo que essa diferença física fosse impeditiva para mulheres, ela não se adiciona num todo homogêneo de diferenças essenciais entre os sexos, nem do ponto de vista da média, nem do individual: pois as diferenças normalmente ditas entre os sexos são entre habilidades de qualidades diferentes, que não se adicionam simplesmente.

O que isto tem a ver com a pergunta do se homens e mulheres se portam diferentemente com relação à conquista amorosa? Pelos mesmos argumentos acima eu diria que é possível que na média sim, ou é possível que se houvesse a possibilidade de realizar um estudo não tendencioso, a resposta que encontraríamos seria que não, na média. Mas que eu saiba tal estudo, desprovido de bias, jamais foi realizado até o presente momento, então eu prefiro reservar o meu juízo suspenso. Uma metáfora disso é a consideração de erro nos experimentos em laboratório. Para cada etapa dos experimentos que se faz é preciso considerar pelo menos duas sortes de erro: o erro da escala do instrumento usado (se ele for dividido em unidades, deve-se considerar uma porção dessas unidades o erro do instrumento – isso vai depender da acuidade do mesmo instrumento) e como em cada vez que se faz o experimento podem haver diferenças, mesmo que mínimas, na forma como ele foi feito, então deve-se considerar a estatística das variações, o erro estatístico. Depois que é sabido quantas sub-unidades ou unidades da sua medida cada um dos erros representa, considera-se como irrelevante o erro menor e apresenta-se como erro do experimento aquele entre os dois erros que é de maior grandeza. Não se sabe de antemão qual o erro que realmente é relevante no experimento, mas só após o teste do instrumento e a análise estatística da variação nas medições. Também é impossível responder de antemão a uma pergunta que ainda não foi – se é possível que o seja – elaborada sem bias cultural a respeito da diferença entre homens e mulheres e quanto mais obtido um resultado para uma parcela que pudesse ser considerada como estatisticamente relevante e balanceada da população. No entanto, as pessoas tem, intimamente, as suas respostas, só que estas são condicionadas por seu lugar social – não só por serem eles homens e mulheres, mas dependente de uma série de outros fatores, como classe, educação, pertencimento a uma religião, cultura local – que torna paulistas e cariocas um tanto diferentes uns dos outros e estes diferentes dos chineses e holandeses – é possível imaginar que caso se fizesse a tal da pergunta bem elaborada, se homens e mulheres são diferentes, todos estes grupos respondessem, hipoteticamente que sim, mas ao serem perguntados acerca das diferenças cada um apontasse diferenças diferentes? Então, qual seria a conclusão de tal pesquisa?


Contam que Florestan Fernandes saiu certa feita perguntando às pessoas se elas eram preconceituosas e a maioria dizia que não, mas ao serem questionadas a respeito de se elas conheciam alguém preconceituoso a maioria respondia que sim. Deve-se concluir daí que cada uma destas pessoas é um pôço de tolerância rodeada de preconceituosos por todos os lados, ou deve-se levantar a hipótese de que 1. as idéias que as pessoas fazem do que significa preconceito variam e 2. que cada um pode ser um mau avaliador de suas próprias ações? Deve-se aceitar a opinião das pessoas tal como expressada por elas mesmas, ou deve-se proceder a uma análise do lugar social de cada pessoa tanto socialmente, quanto no momento da entrevista, na sua relação temporária com o entrevistador?

Responda então, Flavia! “Você crê que homens e mulheres se portam igualmente?” Devo dizer que creio que provavelmente sim, na escala individual. Pois todos nós, como homens e mulheres que somos, somos submetidos ao longo da vida a uma educação sentimental que nos vêm compulsoriamente através da forma como agem os outros seres humanos socializados e em socialização para conosco, e aprendemos por meio deles as estratégias culturalmente disponíveis a cada qual dos sexos (nos seus diversos lugares sociais, quero dizer, as estratégias disponíveis para cada qual dos sexos se a pessoa for de uma “classe média ilustrada” ou se ela for “membro de uma comunidade religiosa fundamentalista” podem ser bem diferentes), mas também temos a capacidade de analisar, criticar e escolher, ou mesmo de inventar dentro dos limites aceitáveis da cultura (por exemplo, matar alguém para limpar a honra maculada já não é culturalmente aceitável há algumas décadas, mesmo que a idéia da honra maculada permaneça). Então, na escala individual, como cada qual tem um certo leque de escolhas disponíveis, creio que é possível. Mas na escala da média dentro de uma população é possível imaginar que aquela pergunta bem feita traga tanto a resposta de que sim, como a resposta de que outras diferenças culturais mais relevantes torne a suspeitada diferença irrelevante, como na análise de erros. Então, como nenhum Hércules da pesquisa social realizou a tarefa de fazer a tal pesquisa... Prefiro continuar com meu juízo suspenso enquanto utilizo os instrumentos sociológicos que me são disponíveis na análise do problema. Acho que a análise no texto anterior demonstra um minimamente suficiente do que quero dizer.

(1)Creio que é possível observar o fenômeno inclusive hoje. Quando a crise ataca, procuramos causas específicas e pontuais que devem ser controladas. Procuramos quem são os culpados e como se deveria controlá-lo para que o mesmo não venha a se repetir. Isso por que, como os primitivos que não tinham controle sobre as influências do clima do planeta (nós também não temos, mas as técnicas que nos proporcionam uma efetividade avassaladora com respeito à produção dos alimentos e o sistema econômico de trocas globalizado nos permite disponibilizar – se não a todos, aos que importa – alimentos e as coisas necessárias à manutenção da vida e, mais que isso, permitem afastar, por enquanto, para um horizonte imaginariamente longínquo a questão da hecatombe da vida no planeta Terra tal como a conhecemos)... Pois, assim como os primitivos, não sentimos que teríamos o controle em agir sobre as reais condições que tornam possíveis a crise, que é a forma como se organiza a nossa sociedade – e mais especificamente, nossa economia – em escala mundial. Dentro de um contexto de impotência vivamente sentido como este, tornam-se irracionais os argumentos que de outro ponto de vista são os que tem mais lógica: a revolução e a transformação do sistema de vida do homem. De todo modo, os governos do mundo são mais impotentes e coniventes ainda: dão dinheiro àqueles que foram identificados como causadores da situação.

(2) a afinidade eletiva que Weber analisa é um derivativo desta hipótese. Digamos que a ação religiosa tenha sucesso econômico, não porque de início ela tenha surgido com este intento econômico, mas por que de início, por meio de um acaso qualquer (o que na verdade não é acaso de fato, mas possibilidades que surgem dos próprios desenvolvimentos materiais da sociedade), ela torna o ator melhor economicamente adaptado, isto irá contribuir para o sucesso das idéias religiosas, a medida que mais e mais adeptos são incluídos na comunidade (assim se tornando melhor adaptados economicamente) ou seja por que os adeptos se incluem na comunidade para ter melhor adaptatividade econômica (ou seja, por via de seus interesses materiais, originalmente), colaborando para o sucesso das idéias religiosas. Veja que se torna impossível distinguir, nesta escala, um primeiro momento (seja ele material, seja ideal) de um segundo momento, pois torna-se desde o início, imprescindível, para o sucesso da universalização da idéia, que ela tenha eficácia material futura, assim, como, por outro lado, seja necessário que para que haja uma ação material diferenciada que leve ao sucesso, que ela seja impulsionada por uma mudança em valores pregressos.

(3) Se adotarmos este ponto de vista, é possível pensar que não nos tornamos indivíduos, do ponto de vista dos movimentos da sociedade, através de nossos sucessos, mas por meio de nossos sofrimentos, o que eu considero uma tese poderosa... preciso te agradecer, Léo, por ter me embarcado nessa elucubração toda, pois isto me faz pensar um pouco mais no meu projeto para mestrado... mas essa é outra história, e mesmo que vc me pergunte, eu não seria capaz neste momento, de comentar, por que a idéia ainda não está muito clara pra mim mesma.

(4) Weber no texto A Psicologia Social das Religiões Mundiais.

(5) Daí veio muita discussão a respeito dos campos de extermínio. Há na história, alguns campos heróicos que se revoltaram e mesmo pagando o preço daquilo que eles queriam evitar – a sua exterminação – permaneceram firmes até o último suspiro (a história que eu ouvi foi de um campo em que os presos se fortificaram em uma das construções e foram queimados junto com a construção, pelos nazistas). Mas o que é para muitos um mistério é entender por que não houve mais levantes.

(6)assim como também o é a “sociologia” que se baseia em perguntas cujo sentido cultural jamais foi analisado e que geram números que se imagina representativos das opiniões de uma população, sem o mínimo de análise prévia nem do que representa a pergunta nem do palco que representa a entrevista, em que tanto entrevistador quanto entrevistado podem se portar como atores que mentem, e sem nem mesmo avaliar que há mais coisas entre opiniões e atitudes reais do que supõe essa filosofia das enquetes.

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